Adriana Antunes: envelhecer - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/02/2019 | 07h00Atualizada em 05/02/2019 | 07h00

Adriana Antunes: envelhecer

A vida é um ciclo, sempre soubemos. O que não nos contaram é que envelheceríamos.

Todos reunidos entre a cozinha e a sala. Os mais velhos sentados à mesa, pois perderam o equilíbrio de segurar o prato cheio de comida sem deixar cair um pouco. Os mais jovens, de pé, perto da geladeira, comendo e bebendo com uma agilidade que não lembro de ter tido. Eu bem no meio. Entre a sala e a cozinha. Entre a avó e o neto. No meio da vida. Nem tão jovem, nem tão velha. Acomodando os que vieram antes e organizando os que vieram depois. 

A vida é um ciclo, sempre soubemos. O que não nos contaram é que envelheceríamos. Os primeiros fôlegos começam a faltar, as primeiras dores na coluna, os primeiros sinais de que a idade aos poucos começará a ser contada de modo diferente. Como no francês, sessenta mais onze, sessenta mais doze... Quando somos crianças tudo é mais ou menos parecido. Temos lembranças de subir em árvores, de tomar banho de mangueira, da redemocratização do Brasil. Lembro até do Antonio Brito comunicando a morte de Tancredo Neves. Até o tempo da faculdade mantemos algumas semelhanças. Gostamos das mesmas músicas, vamos às mesmas festas, brigamos pelo mesmo partido. Depois, a vida se torna heterogênea. Não é apenas o saldo da conta bancária que muda ou a cor do cabelo ou o tamanho da barriga. Mudamos nossos comportamentos. 

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Já não acreditamos no mesmo partido, já casamos e descasamos e casamos outra vez, os gostos musicais mudaram completamente, não vamos mais às festas. Eu, aliás, só vou a algum show se der para ficar sentada. Envelheci. O maior desespero é nos descobrir igual aos nossos pais, com as mesmas atitudes que criticávamos. Sim, agora entendo. É preciso uma pá de anos para compreender do que se trata a vida. E é preciso que esses anos cheguem com alguma sabedoria, com mais tolerância e amadurecimento. Não é possível que uma pessoa com 40 anos se comporte como um garoto. Não é apenas o guarda-roupa que precisa mudar, mas nossa capacidade de lidar com a realidade e com as consequências dos nossos atos. Mas bons filhos carecem de bons pais. 

Ao final do encontro, os pratos sujos começam a se empilhar sobre a pia. Os mais velhos não lavam a louça porque estão velhos, os mais jovens estão agarrados aos seus celulares combinando a saída de logo mais. A realidade está posta. Cada um escolhe o lado em que quer ou pode estar. Outra vez a limpeza sobra para aqueles que ficam entre compreender que a vida parte aos poucos enquanto a morte chega de mansinho.

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