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Opinião19/02/2019 | 07h00Atualizada em 19/02/2019 | 09h31

Adriana Antunes: andamos sozinhos, quase sempre

Temos medo da violência que há dentro de gentes que são gentes como nós

Nunca sabemos para onde estamos indo. Seguimos perdidos, aos tropeços, às vezes aos solavancos entre as gentes. Gentes das ruas, das casas, conhecidos, desconhecidos, gentes que se parecem com gentes, gentes de caráter deformado, gentes boas e generosas, gentes estúpidas. Afinal, gentes são gentes. Nenhum braço nos guia pelas vielas sombrias do cotidiano ou oferece uma lanterna para as noites sem lua que atravessamos, às vezes com medo, outras também. 

Andamos sozinhos, quase sempre. Não sabem das dores que carregamos, não compartilhamos, não queremos que compartilhem conosco, já temos as nossas próprias. Andamos descalços pela vida, sentindo os espinhos, as pedras, as gramas, esmagando as borboletas, pisando na merda do cachorro que não foi recolhida. Abrimos o jornal e lemos sobre gentes que morrem atolados na lama, gentes que são a própria lama. Fechamos as portas de nossas casas com muitas chaves. Temos medo da violência que há dentro de gentes que são gentes como nós. 

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Ficamos quietos e em silêncio para que não nos descubram em casa, porque se souberem de nada adiantam as tantas chaves. Gentes que entram pelos miolos das fechaduras, se botam na sala, na cozinha, dentro da panela que aquece no fogo. Gentes que sabem das gentes sem nunca terem conhecido as gentes realmente. Gentes espaçosas e cheias de tentáculos, que querem estar dentro do dentro do outro. De mim mesma tento andar despojada, no entanto, também coloquei chaves e trancas nas portas, para que não invadam e para que eu não invada sem ser convidada. Bom senso é o que nos falta. 

Estamos tão cheios de coisas que as gentes querem e fazem e querem que façamos, e tão vazios de espera, paciência, poesia e espaços livres. Livres para ouvir o som da chuva no final da tarde, a algazarra dos pássaros, o miado dos gatos a pedir comida, os rumores da rua e do corpo. Livres para descobrir o ser humano que há dentro da gente e dentro do outro que também quer ser. Livres para chegarmos ao fim como as folhas que caem e apodrecem na floresta, sem o peso de ter de ter sido alguém importante, até porque os importantes também morrem e são esquecidos. 

Mas isso não significa que saberemos para onde estaremos indo. Seguiremos perdidos, aos tropeços, às vezes aos solavancos entre outras gentes cujas sombras que margeiam o chão são de desamparo, como a minha e a tua, outra vez. Lêdo Ivo já dizia, padecer de naufrágio faz parte da vida, mesmo que não haja sinal de partida.

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