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Opinião28/01/2019 | 10h41Atualizada em 28/01/2019 | 10h41

Marcos Kirst: Essa lama que nos engolfa

Brumadinho é o alerta palpável da lama que paira sobre o espírito nacional

Ganância? Incompetência? Leniência? Descaso? Imprevidência? Desprezo por tudo e por todos? Soberba? Arrogância? Certeza de impunidade? Desconsideração para com a vida humana? Desconsideração para com a natureza? Descompromisso com o presente e com a construção do futuro? Falta de ética, de moral e de humanidade em todo o espectro alcançável e imaginável? Egoísmo absoluto? Cegueira advinda de anos, décadas, séculos de desumanização galopante? Ausência de empatia, de zelo, de prudência? Coisificação do outro, da vida, dos seres e da existência? Altivez? Desamor? Cultivo diário da postura do ódio? Maldade? Desvalorização pura e simples dos valores universais que embasam a vida em sociedade? Desvirtuamento ególatra do sentido da vida?

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A resposta ao questionamento geral apresentado no parágrafo de abertura desta enlutada e triste crônica de segunda, ao deitar os olhos sobre um país que parece se esforçar cotidianamente para ser de segunda, pode ser de múltipla escolha. Em se tratando do horror advindo da tragédia ainda imensurável de Brumadinho, fica difícil não assinalar todas as opções e ainda agregar a elas uma lista também interminável de possíveis causas para definir em que âmbito classificar a origem da catástrofe. O fato é que algo vai mal. O Brasil, conforme Brumadinho nos mostra com a tragédia palpável da perda de centenas de vidas inocentes, moldou-se em um país que chafurda na lama. Na lama física que tragou Brumadinho e nas lamas metafóricas que tragam os brasileiros em todas as instâncias que envolvem suas vidas, como que imersos em um oceano de areia movediça. É assustador. Desesperador. Desolador.

A lama se transformou em entidade presente e perniciosa no cotidiano dos brasileiros. E isso não é natural. Não tem de ser assim. A política nacional chafurda na lama da corrupção envolvendo integrantes de todas (é, todas!) as agremiações partidárias, escancarando o fato de que ética é uma virtude pessoal, e não programática. Os megaempresários chafurdam na lama da ganância e da impunidade. Os cidadãos comuns chafurdam na lama dos ataques pessoais, da agressividade gratuita nas redes sociais, dos xingamentos e achincalhes. A lama do jeitinho, da fraude, da omissão, do ódio, da intolerância, da sonegação, da transgressão, da imposição de direitos e da negligência dos deveres parece ser o ambiente natural em que muitos brasileiros optam por viver. Brumadinho é o alerta palpável da lama que paira sobre o espírito nacional. Somos um Titanic à deriva frente a um iceberg de lama. E por opção pessoal de cada um. Todos somos responsáveis por Brumadinho.

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