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Opinião11/01/2019 | 07h00Atualizada em 11/01/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: cadernos de anotar a vida

Somos filhos do esquecimento e contra ele é preciso lutar dia após dia

Há muito tempo li a bela frase que dá título a este texto. Ela foi escrita pela chilena Isabel Allende. Sempre que algo importante acontece comigo, sinto vontade de pegar caneta e papel e registrar o fato. Isso passou a ter um valor simbólico extraordinário, como se eu quisesse editar os melhores momentos, uma espécie de seleção do que vale a pena ver/sentir de novo. Talvez uma existência não dê para preencher mais do que algumas páginas, visto que na maior parte dos nossos dias não ocorre nada digno de registro. Acho isso bom, pois se fosse o contrário perderia o fascínio de tudo o que é excepcional. Para dar peso a essas doces miudezas, anoto mentalmente o que desejo que tenha permanência. Tento salvar o que para mim já nasce com a pátina da eternidade e desejarei recordar na minha velhice. Faço como uma prevenção contra um tempo que pode ser de estio. Quero saber o que me alimentou e tornar a memória em um salvo-conduto para me proteger da solidão.

Este caderno pode abrigar o voo de uma andorinha numa manhã de inusitado azul. A página de um livro que canta na alma como se fosse um poema a nos dizer continuamente que há algo de maior do que apenas sobreviver. O gesto de generosidade de um amigo também vale, como a passagem para um mundo onde as sombras cedem o seu lugar e confiar é um ato natural. E tem um certo sentimento de justiça, cada vez mais raro, que haverá de ser registrado. Para que a balança reencontre o seu equilíbrio. E lá ficarão escritas todas as vezes que um ser humano foi mais importante do que um pequeno e adorado objeto chamado celular. Comumente ele é acoplado em nossas mãos como uma extensão da mente, do cérebro, da alma. Ou, quem sabe, preencheremos algumas linhas com detalhes daquele domingo em que as íris floresceram e os compromissos foram adiados. Reservaremos espaço para dizer da comunhão amorosa dos corpos, um milagre quase banalizado, mas ainda assim uma ponte que une mais que a linguagem.

Somos filhos do esquecimento e contra ele é preciso lutar dia após dia. Abastecer o coração de poemas. Abraçar plantas e animais. Tomar sorvete ao menos uma vez por semana. Diminuir a certeza dos que acham que tudo é uma questão de obter bons resultados. O maior lucro, afinal, é continuar comemorando o que aparece apenas como nota de rodapé: o brilho manso de um vaso de porcelana; um vagalume sobrevoando a noite; uma antiga fotografia guardada em envelope de cor esmaecida; um ensinamento de Lao-Tsé; a melodia de uma canção de Rosa Passos. O momento em que catalogo a importância dessas coisas desimportantes e nobres. E esse 11 de janeiro de 2019 que nunca mais se repetirá.

Tudo é milagre. A mão de minha mãe quando acariciava um cão. O olhar do menino que fui acompanhando as viagens das formigas. O tempo. Esse que me permite escrever, sentir e repousar. E que talvez me transforme em "silêncio mineral".

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