Ciro Fabres: viver é melhor que sonhar - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/01/2019 | 07h00Atualizada em 09/01/2019 | 07h00

Ciro Fabres: viver é melhor que sonhar

Assim foi o cenário musical, a oferecer-nos mil e uma possibilidades. A música como parceira

houve um tempo em que as músicas ouvidas neste país exprimiam versos arrebatadores. Eram um manancial riquíssimo de temas para a reflexão, seja ela qual for: mais ampla ou existencial, da realidade nacional, sobre comportamentos, tendências, atitudes. Eram temas próprios para reflexões cortantes, contundentes, demolidoras, produtivas, propositivas. Compositores e músicas assim, havia em profusão. O ambiente era propício.

Desde ontem, a Globo apresenta rapidamente a minissérie Elis, que tem como subtítulo um exemplo perfeito dessa produção musical de um tempo atrás: "Viver é melhor que sonhar", síntese lapidada por um dos maiores compositores de uma geração, o cearense Antonio Carlos Belchior, que anos mais tarde, cercado por dívidas e um ostracismo revelador, veio a falecer em solo gaúcho. Para quem está desacostumado, assim podem ser as músicas, e assim eram as composições. Mas em algum momento, isso começou a se perder, um retrato revelador, diria também gerador, de nosso estágio civilizatório.

O verso de Belchior, na voz de Elis, é uma bofetada no marasmo. Tem sonoridade. Remete ao universo dos sonhos, que outrora foi tão caro, coletivo e estimulante, hoje praticamente esquecido ou restrito a sonhos individuais. Se ainda há sonhos coletivos e comunitários, aqueles que se sonham juntos, e dizem que ainda há, eles não reúnem mais a força suficiente para abrir espaço no imaginário da população. Ficam guardados quase secretamente, no íntimo de cada um.

Belchior chama para a realidade, uma dualidade imprescindível. Então, quando ecoa o subtítulo da minissérie Elis, martelam na mente e na alma as possibilidades perdidas, que ficaram para trás. Que mundo nos esmeramos em construir! Hoje, a pauta dos debates é bem outra. Belchior sentia vir vindo no vento o cheiro da nova estação. O novo sempre vem, ele tinha certeza. Há controvérsias. O novo é como a vida. Não pode ser contido, ele vem. Mas pode ser sufocado. E não é de hoje, ele logo vira alvo de manipulação por sua força e seu poder de sedução no imaginário popular. Cautela com o novo, portanto. Isso é detectado por outro compositor imprescindível daquele farto manancial de um tempo atrás. Cazuza foi cortante em outra síntese, cético com as novidades: "Eu vejo o futuro repetir o passado", dizia ele.

Assim seguíamos, entre um verso e outro. A propósito da minissérie Elis, que nos destampa a memória, assim foi o cenário musical, a oferecer-nos mil e uma possibilidades para a compressão nossa, e da existência. A música como parceira.

Viver é melhor que sonhar. Viver deveria dar consequência aos sonhos. Era para ser assim. Mas onde foi parar o cheiro da nova estação?

 
 
 

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