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Opinião31/01/2019 | 07h00Atualizada em 31/01/2019 | 07h47

André Costantin: placas e etc.

Nas placas dos carros podia-se ler e adivinhar as origens e os sotaques do motoristas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Quinta passada alinhavei uma leitura particular do nosso subdesenvolvimento, ou atraso, pelas placas de trânsito, com os eternos acentos errados, (des)concordâncias e outras fixações mal vertidas da língua que até hoje nos fazem incapazes de escrever bem-vindo (ou seria bem vindo, ou benvindo?). Enfim, em cada trevo de cidade, uma versão. 

Hoje sigo nesta estrada rasa. Penso porém nas placas dos automóveis, que agora alimentam outra farra estatal. Na infância eu via as placas amarelas dos carros. Elas tinham uma pequena estampa sobreposta em relevo, com o símbolo da cada Estado do Brasil. O Paraná trazia a araucária estilizada, o Rio Grande ostentava a figura do Laçador. Cumpriam a sua função, no estilo da época.

Depois vieram as inexpressivas placas cinza, sempre com novas firulas reflexivas para engambelar os motoristas. Elas preservavam as iniciais dos Estados e os nomes das cidades. De certa forma, traduziam o forte elemento regionalista da nossa fragmentada identidade nacional. Um traço que o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto sabiamente interpretou, no campo da literatura, ao escrever que no Brasil ninguém se sente brasileiro antes de sentir-se pernambucano, paraibano, baiano e assim por diante. Vide o caso do gauchismo.

As tarjas amarelas e cinza ignoravam o nome do país. Mas nelas podia-se ler e adivinhar as origens e os sotaques da ou do motorista “brasileiro” da frente, puxar uma prosa ou até um mate de beira da estrada. A identidade regional prevalecia, ao contrário dos carros argentinos surfando pela Freeway, que traziam na placa só o nome do país – exalando o orgulho nacional que demarca a identidade platina. 

Entre o apagamento da brasilidade e o ego nacionalista da Argentina, dois entes vira-latas (um a sacanear, o outro a latir), pipocavam os carros uruguaios, com placas de todo jeito, conforme a época do bólido em rodas – e assim ia o Uruguai, sempre por fora, um pouco à frente. E cada país seguia com seus simbolismos e – horror da palavra! – idiossincrasias. 

Nos últimos tempos, o nosso desconexo Cone Sul, não sabendo resolver os seus pequenos problemas mais elementares, resolveu passar uma purpurina social de primeiro-mundo. Adota-se uma nova placa, padrão Mercosul (imitação da União Européia). E vai o dinheiro pelo ralo dos governos, seguem as burocracias, as propinas nas fronteiras – nada de novo sob a América do Sol. Exceto a nova placa, que além de supérflua, não vai cair nada bem no meu Fusca 72, verde Guarujá.


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