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Opinião29/01/2019 | 07h00Atualizada em 29/01/2019 | 07h00

Adriana Antunes: palavras

Palavras colorem os fatos, dão o tom da narrativa, mancham de suor e lágrimas

Frustração. Vazio. Sensação de impunidade. Banalização. Descaso. Falta de consciência. Negligência. Ganância. Medo. Para além de conceitos cujos significados podem ser encontrados no dicionário, essas palavras guardam sentimentos e afetos. Elas só fazem sentido se você se permitir senti-las. Conhecê-las, apenas, é pouco. Pouco porque palavras em seu sentido denotativo não nos atingem. Fazem parte do nosso vocabulário, mas não expressam quem somos. Sim, porque as palavras falam por nós. 

Colorem os fatos, dão o tom da narrativa, mancham de suor e lágrimas o que aconteceu. Há pessoas muito eruditas, cheias de palavras difíceis, rebuscadas, mas que não fazem sentido fora da retórica. Do mesmo modo, há pessoas que possuem poucas palavras em seu bojo de conhecimento e também não conseguem (se) tocar. 

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Palavras são recursos que adquirimos desde o momento em que somos introduzidos no universo da linguagem, mas é o coração, o caráter e a capacidade de sensibilizar que nos fazem usá-las do melhor modo possível. As que citei hoje, logo no início deste pequeno ensaio de palavreado amoroso são as que têm me acompanhado, principalmente nos últimos tempos.

Estamos perdendo a capacidade de nos chocar com os fatos e aí as palavras, por mais poderosas que sejam, não nos atingem. E quando passamos a banalizar as mortes sejam elas por drogas ou violência; quando não nos assustamos com a tragédia diária seja ela do morador da esquina que teve a casa incendiada ou do que aconteceu em Brumadinho; quando simplesmente dizemos que tudo neste país acaba em pizza e não nos revoltamos, estamos de certa forma sendo cúmplices de um sistema falido, que nós alimentamos com nosso descaso e egoísmo. 

Gosto muito da literatura haitiana, é rica de simbologias. Uma delas diz que qualquer ser humano pode tornar-se zumbi e andar feito meio vivo, meio morto por aí, sem impor resistência a nada. Para curar um zumbi é preciso jogar sal sobre ele, porque o sal é o único elemento que traz de volta à consciência. Sejamos, pois, mais salgados em nossas ações. Quem sabe, assim, saímos do piloto automático e reagimos.

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