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Opinião 15/01/2019 | 08h12Atualizada em 15/01/2019 | 08h12

Adriana Antunes: as árvores

Talvez esteja escrevendo sobre isso porque andei plantando árvores pelo quintal e jardim

 As árvores guardam o silêncio solar das manhãs. Recordo-me do riso solto de minha nona tirando laranjas do pé que havia atrás de casa. Falávamos não lembro bem do que, mas lembro do seu riso e das mãos que enlaçavam a fruta antes de arrancá-la e jogá-la ao desterro da cesta de vime. Lembro da paz que havia no quintal, a luz do sol sendo filtrada pelo limoeiro, o perfume das cerejeiras e da segurança calada dos abraços que se perderam em alguma brecha do tempo. Talvez venha daí uma velha vontade de ser árvore em alguma vida. Ser uma mulher habitada por também raízes, frutos e seiva. 

Talvez esteja escrevendo sobre isso porque andei plantando árvores pelo quintal e jardim. Dias atrás, enquanto caminhávamos pelo bairro, na entrada de um loteamento em construção vi e logo me apeguei a um pe de acácia negra. Falei ao seu ouvido que iria arrancá-la dali e a levaria para um outro espaço em que poderia crescer e crescer muito e ninguém iria arrancá-la outra vez. Plantamos ela em nosso jardim e a batizamos de Cora, em homenagem a Cora Coralilna. Mesmo assim, parecia estar desgostosa. Sofreu, murchou, secou e mesmo com todas as conversas e água e pó de mamona, definhava a cada dia. Até que lembrei-me de minha nona e do jeito com que podava as plantas. 

Ela dizia muitas coisas, entre elas que amar é dar limites, é arrancar o que precisa ser arrancado e não temer o inevitável. Mesmo amando, não podemos controlar tudo. Aliás, a vida e a morte estão aí para nos dizer que não podemos controlar nada. Dizia também que era preciso cortar os galhos secos para que eles não matassem a planta. Arrisquei. Tirei tudo que estava seco, galhos, folhas, um pedaço do tronco. Ficou reduzida a 20% do seu tamanho original. Coloquei meus receios no desejo de salvar a planta. 

Cora, muito menor do que no dia em que a retirei do terreno passado, coloca agora seus primeiros galhos verdes para fora. Recordo de como minha nona morreu. Ainda sinto o calor de seu corpo que já principiava o desligamento.

Há saudades para sentir como há tempo para uma árvore crescer. Talvez sejamos todos árvores. Algumas de frutos outras de flores e outras de folhas apenas. Uns caducos outros não. Como desconheço o silêncio que as árvores tem diante da morte, guardo a despedida para dentro e deixo que o céu me leia. Talvez a grande sabedoria esteja na serenidade com que as mãos plantam, pois sabem tocar a terra como tocar a pele de quem amamos. Então toque, toque com a ponta dos dedos, com a mão, com os braços, com o coração e a alma, por que um dia a única coisa que sobrará é a possibilidade de escrever uma crônica qualquer sobre.

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