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Opinião21/12/2018 | 14h00Atualizada em 21/12/2018 | 14h00

Pedro Guerra: Tudo aquilo que sobra

O foco mesmo é perceber que os pequenos excessos, se juntos, formam uma pilha de coisas inúteis

Pedro Guerra: Tudo aquilo que sobra Antonio Giacomin / Reprodução/Reprodução
Foto: Antonio Giacomin / Reprodução / Reprodução

Se eu pudesse te dar um último conselho antes do ano acabar, aqui vai: quando você for ao Mc Donald’s, sempre peça a sua bebida sem gelo. Não, eu não estou ficando louco e muito menos propagando uma campanha de prevenção às dores de garganta. O que poucos sabem é do segredo-nada-secreto que envolvem as bebidas de fast food: elas já vêm geladas. Experimente, eu aposto o que você quiser. É só pedir um refrigerante sem gelo e perceber que, invariavelmente, ele virá gelado. Com o suco é a mesma coisa. E o porquê de eu estar falando sobre isso? Ah, sim... Foi desse jeito estranho que eu comecei a reparar nos pequenos excessos presentes no dia a dia.

Talvez a época do ano seja propícia: você já pensou em quais excessos carrega consigo? Eu estou falando daquele casaco que você nunca mais usou, sim, mas também da agenda infinita de contatos do seu celular (você conhece e precisa de todos aqueles números?). Eu estou falando das coisas que você comprou só por comprar, e olha que esse nem é um manifesto de consumo consciente (ou talvez sim), mas o foco mesmo é perceber que os pequenos excessos, se juntos, formam uma pilha de coisas inúteis.

Veja bem: se o refrigerante já vem gelado, qual é a necessidade de colocar no mínimo umas 8 pedras de gelo (sim, eu contei) dentro do copo? A resposta é meio óbvia se a gente para e pensa que uma rede de fast food é sinônimo de capitalismo. Então acaba sendo meio evidente que o gelo está ali apenas para ocupar espaço, mesmo que a sua função já tenha se perdido.

Sendo assim, tudo aquilo que sobra já não faz sentido, já não tem mais uso. Ao menos, não para nós. É claro que os 8 cubos de gelo podem refrescar um outro copo que esteja, esse sim, em temperatura ambiente. Mas se não me serve, por que está aqui?

Comecei a exercitar o desapego das pequenas coisas e reparar que qualquer excesso não compensa. Se olharmos pelo viés social, o resultado é ainda mais assustador. Nós não só postamos a foto na praia, como queremos deixar claro que foi uma praia em Cancún. O hotel? 5 estrelas. A vista? Para o mar. Os passeios? Mergulho com tubarões asiáticos brancos e raros. E é aí que nós reparamos que adoramos viver de excessos. E a verdade é que o excesso nada mais é do que um vazio imensurável.

Gosto da ideia de sermos simples. não, não estou dizendo para vivermos unicamente com a roupa do corpo ou deixarmos de ir para Cancún se houver a chance (quem me dera). A ideia apenas é a de que, quem sabe, aquela velha frase esteja certa: menos é mais. Quer uma prova? Jessica Alba utiliza transporte público e adora roupas baratas. Keanu Reeves não tem seguranças e distribuiu 90% do cachê de Matrix entre a equipe de produção. Kate Middleton, veja só, uma princesa, faz questão de deixar claro que repete modelitos. De quebra, enquanto escrevia esta crônica, encontrei uma matéria de um casal de belo horizonte que vivia em um apartamento de 1,5 milhão, ganhava 30 mil reais mensais, e largou tudo para viver pelo mundo em busca da paz interior.

Sabe por que? Porque o excesso não preenche.

Sempre que decido falar sobre alguma coisa, gosto de dar uma olhada no dicionário para verificar o real significado das palavras. Excesso, segundo o Aurélio, representa tudo aquilo que passa da medida, tudo aquilo que é um exagero. Sejamos excedentes, então. No amor, nos atos de bondade, nos sorrisos sem porquês e nas inúmeras formas de caridade. Mais do que isso, ou qualquer coisa além disso, é pura perda de tempo. É pura sobra. É puro resto. É puro nada.

E tudo aquilo que sobra, para começo de conversa (ou fim), nem deveria estar aqui.

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