Gilmar Marcílio: para o ano que chega - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/12/2018 | 10h00Atualizada em 28/12/2018 | 11h01

Gilmar Marcílio: para o ano que chega

Não sou adepto de rituais, mas reconheço o valor simbólico que eles representam

Não sou um homem inclinado à pratica de rituais. Tento pertencer à ordem dos dias e ao que eles me apresentam, sem fazer da expectativa uma esperança tantas vezes malograda. Gosto de seguir em frente como se fosse um marinheiro sem bússola, sabendo que posso eventualmente ficar à deriva; mas em outras consigo ser o timoneiro do barco que me conduz a algo parecido com a felicidade. Porém, sei como é vital para a maioria das pessoas, nesta passagem de ano, comemorar, seguir uma norma de comportamento que inclui festas e espocar de fogos. Marcar esse momento como se tivéssemos algum controle sobre o futuro nos garante uma tranquilidade provisória. Não sou adepto, mas reconheço o valor simbólico que isso representa. Espio pelas frestas esse período tão solar, em que cada um carrega pacotes e afeto e, de certa forma, também me sinto inserido. Busco não estabelecer planos mirabolantes, sou mais dessas decisões modestas que quase nem são percebidas quando se infiltram no nosso mundo. Também vejo com simpatia o empenho para romper com hábitos nocivos à saúde e à mente. Dezembro é um bom mês para isso. Março também. E ouvi dizer que excelentes resultados são obtidos em outubro. Tudo cabe no humano quando a vontade e o esforço se juntam para mudar algo que obscurece a alma.

Procuro ser contido nas minhas ambições. Sei que a frustração contamina o desejo de romper o que se acomoda dentro de nós. Nestas semanas de ruas repletas de gente, de alvoroço demarcando cada fisionomia, sinto-me inclinado ao aquietamento, a ficar ancorado em mim mesmo. Lendo, ouvindo música, olhando com mais cuidado o ninho dos sabiás, os jasmineiros floridos, as nuvens escuras que desenham os temporais. Ao contrário de tantos, não sou invadido pela melancolia. Lembro com indizível gratidão do amor que recebi das tias, do pai e da mãe. A impermanência não me provoca um sentimento de desolação, de perda. Muito antes de urgência, de beber do cálice até a última gota. Abraço quem está próximo, mas não esqueço de bendizer a solidão. Sem ela, haveria apenas desordem e burburinho. Acentua-se meu gosto por partilhar o nome de um autor, indicar um filme, convidar amigos para saborear uma receita nova. E de passear com desenvoltura pelo lado de dentro. Mas sei que o silêncio só pode amadurecer quando estamos em nossa própria companhia. Continuo acreditando no valor terapêutico das palavras. É por isso que quero deixar para cada leitor – que é um amigo - este fragmento do “Manual”, do filósofo Epiteto. Um convite para praticarmos a retidão moral, a ética; para sermos bons e justos. E, quem sabe, compreendermos que nosso destino é o de passar. Como as borboletas. Como as pedras.

"Lembra-te que é preciso que te comportes como em um banquete. Uma iguaria que está sendo servida chega a ti? Estendendo a mão, toma a tua parte disciplinadamente. Passa ao largo? Não a persigas. Ainda não chegou? Não projetes o desejo, mas espera até que venha a ti. Age do mesmo modo em relação aos teus filhos, à tua mulher, aos cargos, à riqueza, e um dia serás um valoroso conviva dos deuses."

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