Gilmar Marcílio: jogados ao mar - Cultura e Tendência - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Opinião14/12/2018 | 10h40Atualizada em 14/12/2018 | 11h24

Gilmar Marcílio: jogados ao mar

Abraçar a dor alheia é admirável; torná-la sua, nem tanto

Você pensa que não tem dentro de si força ou capacidade para enfrentar determinada situação. Sua alma parece se estilhaçar a cada momento. Lembra da fragilidade de tudo e em como gostaria de ser outro, qualquer outro: um homem, um gato ou uma planta. Olha para o lado e lastima: a vida não é justa. Não precisará de grande diligência para alcançar alguém que lhe parece mais feliz. Acredita que a ninguém os deuses deveriam impor tão duras provas. Esquece de refletir sobre como tudo é fortuito num mundo que se rege mais pelo aleatório do que pelo jogo do merecimento. 

Leia mais
Gilmar Marcílio: a natureza das coisas 
Gilmar Marcílio: adote um filósofo

E se não fizer bom uso da razão, esquecerá que a balança de ganhos e perdas deve ser utilizada somente no último dia de sua existência, como nos ensinou aquele velho sábio. Pode tornar-se ressentido se insistir nas comparações, deixando de compreender que esse é um desejo que pertence à ordem do humano, não da natureza. Ignora que se pode encontrar poesia mesmo quando, sem véspera, sem anúncio, sentimo-nos jogado ao mar. Pois é neste exato instante que descobrirá a força que o impede de desistir.

Nunca canso de me maravilhar com a nossa faculdade de adaptação e resistência. Uma observação quase banal, mas que é uma espécie de salvo conduto. Há qualquer coisa dentro de nós que não se verga, que persiste e encontra na vontade de ir além do sofrimento que veste aquela hora, aquela situação. Será mais fácil atravessar paisagens de tristeza quanto mais tivermos em nós a inclinação para o espiritual, entendida aqui como a aptidão de se alimentar com a beleza do mundo. O cuidado para não se deixar engolir pelo trivial, pela tentação do mais fácil, do que exige tão somente a primeira camada de esforço. É um trabalho que não cessa jamais, mas que vem acompanhado por renovadas ondas de satisfação. 

Será exigido um pequeno afastamento de si mesmo para que a lucidez encontre sua morada. Abraçar a dor alheia é admirável; torná-la sua, nem tanto. Precisamos usar essa força exigida na separação para não naufragar, mantendo a cabeça sobre a água. A robustez moral com a qual todos fomos aquinhoados é maior do que pressupomos ter. Basta sermos testados. Mortes de seres amados ou despedidas ocasionais são apenas um hiato provisório no gosto de viver. Há algo de inquebrantável neste projeto. Tanto melhor se ele vier acompanhado da fé. Mas não precisará necessariamente dela para seguir na prática da felicidade, da humildade e da gratidão.

O que me acontece poderia estar reservado a qualquer um. Penso sempre na imagem do mar para converter o risco do ressentimento em aceitação e quietude. E continuar colhendo tudo como uma estação em que a impermanência é uma benesse, não o chicote de um deus que se compraz em furtar o que me sustenta.

Quero sair dessa privilegiada aventura sem mágoas, certo de que não fui vítima de nada. Continuo sendo mais forte do que eu.

Leia também
Katia Suman autografa livro sobre a rádio Ipanema FM em Canela

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros