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Opinião 07/12/2018 | 05h59Atualizada em 07/12/2018 | 05h59

Gilmar Marcílio: a natureza das coisas 

 Com a passagem dos anos, tento seguir leve, aceitando tudo que se passa.

Não me sinto inclinado a idolatrar a juventude e nem cedo à tentação de acreditar que a sabedoria é privilégio dos mais velhos. Tudo se mescla nesta vida de acontecimentos imprevistos e outros tantos em que nos consideramos seus autores. Com a passagem dos anos, tento seguir leve, aceitando tudo que se passa. Lembro vagamente da última vez em que vociferei contra algo, deixando minha alma abatida. Dou-lhe a pouca importância que reservo a tudo que é circunstancial. Sei que meu espírito se fortalece com a arte e os encontros. São dois pilares com os quais me abasteço, privando-me da sensação de isolamento. Muitas vezes as conexões afetivas são sutis e não somos capazes de alimentá-las. Mas elas são suportes valiosos que podemos acessar quando questionamos o sentido ou a natureza das coisas. O primeiro é um atributo humano e a segunda pertence à esfera do inalcançável. Distinguir um do outro pode se constituir num exercício de força interior. 

 Sei que a vida seria menos interessante se não convivesse com pessoas que me reconduzem ao caminho. Que mostram, a despeito das resistências, de que sou capaz de enfrentar o que me dilacera. Mas que igualmente ensinam que é equivocado apegar-se a algo que obedece unicamente à ordem do prazer. Durante muitos anos pude contar com o apoio do pai, da mãe e das tias que se desvelavam para tornar os dias melhores. Hoje, a continuação desses laços cabe à minha irmã, Salete, com quem partilho tudo que considero relevante. Renovo mentalmente a gratidão, esperando que as adversidades, ao me visitar, encontrem um homem que se mantém de pé, a despeito das perdas pelas quais passou. Sou salvo constantemente pela lembrança de algum verso ou por saber que posso bater à porta de amigos que acolherão as minhas fragilidades. Procuro transformar esse breve hiato de consciência num projeto em que a beleza e a honestidade ocupem um lugar significativo. 

 Acima de tudo, quero estar atento. Avançando quando uma nesga de alegria ou de afeto é ofertada. Recuando se o convite induz a escolher o que se revelará logo adiante sombrio, em detrimento do fulgor momentâneo. Nem sempre consigo distingui-los, mas sou cada vez menos comandado pelos impulsos. Hoje, as escolhas são precedidas por uma reflexão maior, acessando mentalmente as lições que recebi de meus mestres, em eterna admiração.

Existir é áspero e fascinante. Evito a arrogância de cobrar dos demais a ação correta, a justa palavra. Lembro que os comportamentos dependem do que cada um experimentou. O que me emociona pode deixar tantos indiferentes. E vice-versa. Ser complacente é o primeiro passo para evitar extremismos, tão caros à nossa época.

Que cada um escreva sua história observando todo o drama, não apenas a cena em que está participando.

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