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Almanaque21/12/2018 | 14h51Atualizada em 21/12/2018 | 14h51

Entrevista: André Trigueiro, jornalista da Globonews, fala sobre valorização à vida

"Ninguém é feliz o tempo todo. E tudo bem com isso"

Entrevista: André Trigueiro, jornalista da Globonews, fala sobre valorização à vida Marcelo Casagrande/Agencia RBS
André Trigueiro esteve em Caxias do Sul à convite do Centro Caxiense de Valorização à Vida (CCVV) Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS


A frustração que metas não alcançadas podem trazer é uma das responsáveis pelo fim de ano ser marcado por um período de introspecção e, em muitos casos, agravamento de quadros depressivos. Afinal, é durante dezembro que a autocobrança fica mais forte e a sensação de poder ter feito mais - ou melhor - evidencia. À convite do Centro Caxiense de Valorização à Vida (CCVV), o jornalista da Globonews André Trigueiro esteve em Caxias do Sul para convencer aos centenas que assistiram sua palestra no Colégio São José de que preservar a vida é a melhor escolha para qualquer um. Ainda que Trigueiro seja protagonista de temas voltados ao meio ambiente - reconhecido internacionalmente pela sua dedicação ao assunto, ele tem circulado pelo país para disseminar ao público não técnico, informações sobre como combater o suicídio. Trigueiro defende que o tema, tabu para boa parte da população, precisa ser debatido à exaustão para que políticas públicas possam ser desenvolvidas e que, pouco a pouco, as pessoas consigam identificar que alguém que está ao seu lado precisa de ajuda. 

O jornalista é autor do livro Viver é a melhor opção - A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo, em que aborda o problema a partir dos números divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo o órgão, o suicídio é responsável por 800 mil mortes anuais e avança pelos países. Em Caxias do Sul, no primeiro semestre deste ano, foram registrados 22 casos e 189 tentativas de suicídio. 

Pioneiro: Como podemos ajudar a contribuir para que o número de suicídios diminua?André Trigueiro: No livro, a gente usa uma expressão que eu acho muito interessante que é "rede de atenção e cuidado". Qual é o problema do suicídio? É um fenômeno complexo, multifatorial e enquanto ficar restrito a médicos, profissionais de saúde, psicólogos, psiquiatras e suicidólogos, a gente não vai conseguir, no meu entendimento, declinar essa curva. Informação pode salvar vidas. As pessoas precisam saber quais são os sinais de alguém que está em desacordo com a vida, em um estado muito aflitivo, que nem sempre se manifesta da forma como a gente está imaginando ser. Às vezes, é uma frase solta, algo que foi escrito, e a gente precisa saber. Às vezes, são coisas relativamente simples de resolver. Tivemos agora o episódio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Muitos jovens se sentem extremamente cobrados para passar no exame, e essa cobrança por vezes oprime o peito e estilhaça o coração. Você tem jovens que passam por uma angústia que os pais e amigos por vezes desconhecem, e aquilo fica por vezes muito embutido dentro do menino ou menina que está passando por essa experiência. A gente está vivendo em uma correria onde as pessoas não têm a disponibilidade da escuta, muita gente entretida várias horas do dia nas redes sociais, na internet. Há pouca paciência nas relações interpessoais para ouvir o outro. Precisamos estar mais atentos ao que acontece perto de nós, no nosso perímetro, e informação ajuda.

Entre jovens, há aumento de suicídios? Por que isso acontece?
Sim, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem registrado o aumento das estatísticas envolvendo o suicídio entre jovens. Isso é um fenômeno mundial. São muitas as possíveis causas para isso estar acontecendo, que vão desde uma relação muito superficial com pais ou responsáveis, onde não há troca, intimidade, um conhecimento real dos pais sobre como os filhos estão. Isso passa pela banalização do uso das drogas e a facilidade de se obter drogas lícitas ou ilícitas. Também passa pela forma como se tem trocado o tempo das relações interpessoais sensoriais, você com seu grupo, trocando ideias e conversando, pela forma progressiva com que as redes sociais têm demandado essa atenção. Estudos confirmam que essas 8, 9, 10h por dia na internet podem determinar estados depressivos. Você fica muito deslumbrado com seguidores e curtidas, e a digamos que a musculatura da interação social real fica atrofiada. E isso tem um custo emocional. Nós temos essa banalização da vida, o consumo pelo consumo, o deslumbramento com o Black Friday, o natal pagão de muitos presentes e você vai colocando em objetos descartáveis e perecíveis a condição para ser feliz. E aí as pessoas abastadas sentem o vazio no peito porque elas aparentemente têm tudo que elas precisam e se sentem arruinadas, psicologicamente, emocionalmente. Essa ditadura da eterna alegria, as selfies, onde eu estou, com quem eu estou, o que estou comendo. Nós vamos compartilhando na internet frames de felicidade falsa. Ninguém é o tempo todo feliz e ninguém está o tempo todo de bem com a vida. E isso não é problema, a vida é assim. A vida é uma montanha russa. 

Há sintomas ou causas mais frequentes que diferenciam as pessoas que tentam contra a vida?
Uma quantidade importante de pessoas, de diferentes faixas etárias, predominantemente do sexo masculino, é bom frisar, têm, em momentos de extrema agonia, aflição, angústia, tristeza e solidão, desistido de viver. Eu tenho pesquisado sobre esse assunto por 19 anos, e é muito interessante a gente ver como, por vezes, muitos suicídios são evitados porque essa pessoa não está sozinha. Ela tem ideação suicida, naquele momento ela cultive a coragem de acabar com tudo, mas tem alguém do lado, ela tem a coragem de ligar para uma instituição como o CVV, ou inadvertidamente toca a companhia, é o porteiro, você conversa, e muda a frequência. Ela não segue em frente aquele projeto mais. É impressionante. Essa é uma questão que envolve os jovens também, que é a impulsividade. Eles de alguma forma parece que desaprenderam a contar até três. O que você não resolve rápido, você não espera o dia seguinte. Daqui a uma semana é uma eternidade. A gente precisa prestar mais atenção ao próximo. Pessoas que atravessam risco suicida dão sinais, por vezes, e quando dão é nossa obrigação moral acolher. A palavra-chave não é repreender, não é o dedo em riste, é a mão estendida. É tentar, de alguma forma, construir uma ponte com a pessoa para que ela, eventualmente, possa conversar, desabafar, abrir o coração.
E nós temos uma questão cultural da rigidez. Nós estamos em uma região onde a imigração é forte e algumas culturas são muito rígidas. Entre o preto e o branco, não tem o cinza. É sim ou não, é dá ou desce. Existem outras linhas de estudo que mostram que posturas rígidas são potencialmente danosas a quem esteja com a ideação suicida. Elas não veem saída. É como se fosse uma pressão que ela se impõe diante das circunstâncias e diante daquilo que ela aprendeu a ler do mundo. 

E o que te levou a pesquisar sobre suicídio?
Eu sou espírita e recebi, em 1999, numa reunião mediúnica, um convite para eu pesquisar esse assunto. Eu sou jornalista e sou desconfiado. O espírito falou, para mim: "seria bom você estudar o fenômeno do suicídio, que é caso de saúde pública no Brasil e no mundo". Eu falei assim: "Acho você está enganado. Eu sou jornalista. Ele falou: "onde você trabalha você tem como pedir uma pesquisa sobre o assunto. Faça isso, porque as pessoas não tem informação correta sobre esse problema, e informação pode ser algo importante." Óbvio que eu pedi a pesquisa e óbvio que eu constatei o problema. Essa conversa teve uma sequencia, eu me aproximei do CVV nesse período. E eu comecei a ver que por trás da discussão sobre o fenômeno do suicídio estava embutido algo do meu trabalho. A OMS editou no ano 2000 um manual para profissionais de imprensa sobre como reportar os assuntos relacionados ao suicídio. Sem imprensa, sem comunicadores, sem profissionais de comunicação divulgando informações que corroborem a favor da prevenção, esse assunto não tem solução. Resumindo uma história de 19 anos eu diria que o pontapé inicial foi de alguém que apareceu subitamente sugerindo uma pesquisa e eu, desconfiado, não levei muita fé no início. Não sou profissional de saúde, não sou psicólogo nem psiquiatra, nunca tive depressão, nem atentei contra a minha vida.  Livros que falam sobre o fenômeno do suicídio escritos por profissionais de saúde, salvo raras e honrosas exceções, são para os pares. Psiquiatra escrevendo para psiquiatra, psicólogo escrevendo para psicólogo. Eu estou escrevendo para o "povão", para quem sabe ler. Jornalista tem que ser claro e objetivo, eu tentei ser. Talvez isso explique 50 mil exemplares vendidos e 100% da renda para o CVV.
Você defende que quanto mais se fala corretamente sobre o tema, mais vidas a gente economiza. Depressão não é sinônimo de estado depressivo, ela é uma tristeza persistente. Depois de 10 ou 14 dias se sentindo oprimido por uma dor que você não está conseguindo entender porque ela está castigando você, você não consegue trabalhar bem, você não consegue vibrar com nada, você não tem alegria. É uma existência sem vida, a vida perdeu a graça. Eu entrevistei a dois meses atrás o padre Fábio de Melo, e ele corajosamente assumiu: "eu tive uma síndrome do pânico e depois veio o problema da depressão, e eu tive que procurar ajuda". Fora do ar eu perguntei para ele: "padre, onde estava Deus no auge da sua crise?" E sem nenhum stress ele respondeu de bate-pronto: "Deus estava onde sempre esteve, eu é que não consegui chegar lá". Uma resposta muito interessante. Então, nas palestras que eu faço, e isso vale para a abordagem das mídias, isso não tem nada a ver com falta de fé. Eu dei o exemplo do padre Fábio de Melo e poderia dar do Marcelo Rossi. "Ah, fraquejou na fé". Não tem nada a ver. E o que tem de liderança religiosa, por ignorância, achando que basta frequentar a igreja, o terreiro, o centro espírita, o que for, para ficar imune. Isso é falso, é crime de lesa-saúde. As lideranças religiosas que se informam dizem: "nada contra o apoio espiritual, ele chega sempre bem. Mas ele não é determinando para você fazer a travessia do buraco em que você se encontra, para a luz".
Eu fiz palestra esse ano no Corpo de Bombeiros do Rio Janeiro. Eles debateram o suicídio mas não como salvar, como resgatar. Eles falaram: "está acontecendo entre nós, as estatísticas de suicídio entre nós aumentaram." Vamos discutir como a gente pensa isso? Se acontece como aconteceu em uma escola particular de São Paulo neste ano, dois casos de suicídio de jovens em 10 dias, e o que eles fizeram? Vamos fechar a escola para balanço. Não vamos fingir que isso não está acontecendo, que é a reação que muitos têm.

A sua vinda para cá vem justamente em um período que a gente sabe que há o maior registrado de tentativas de suicídio, véspera de Natal. Por que isso acontece?
Fechamento de ano é fechamento de ciclo. Então, inconscientemente, as pessoas pensam: como é que está a minha vida? Como foi esse ano, foi bom ou ruim? Nem todo mundo é complacente consigo mesmo para perceber que nunca haverá um ano só de coisa boa ou coisa ruim. Mas dependendo do momento psicológico da gente, o julgamento pode ser muito cruel. Outro ponto: férias. Férias significa que meu tempo livre não está programado. Quem vai programar agora sou eu. Tem gente que não lida bem com a situação da liberdade absoluta da escolha, gosta de ter rotina. Pois isso exonera você da responsabilidade de escolha. E então entra de férias: e o que eu vou fazer amanhã? E as férias, em determinados casos, remete ao encontro das pessoas consigo próprio, com suas vontades genuínas, com seus desejos. Falta de autoconhecimento gera dor. Tem gente que não se conhece, não se pergunta. E você descobre isso quando? Nas férias. E mesmo que você não esteja de férias, as cidades costumam ficar mais vazias e melancólicas. Menos movimento. E muita gente associa perda de movimento à melancolia, à falta do que fazer. Então é você e as suas caraminholas. 

Como as cidades podem combater o suicídio: há alguma estratégia eficaz?
Por exemplo em Caxias: a cidade precisa ter CVV forte e atuante, ter um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) que está atendendo e funcionando bem. Porque desde que o Brasil fez uma opção de política antimanicomial, os CAPS assumiram uma função estratégica. Pessoas com depressão, com qualquer patologia de ordem mental ou ideação suicida sem plano de saúde tem que procurar o CAPS. É de interesse da comunidade que os CAPS estejam à altura da demanda. Seria importante um decreto determinando que a Secretaria Municipal de Saúde fosse responsável por campanhas, simpósios, seminários, movimentos quaisquer, principalmente no setembro amarelo. Conversas sobre divulgação de prevenção do suicídio, de serviços assistenciais que acolhem pessoas em sofrimento e preparação dos médicos, que saem da Universidade sem saber o que fazer quando alguém tenta se matar. Tem uma história que eu conto no livro que é saborosa, embora trágica. Alto índice de suicídio em Londres, por inalação de gás de cozinha. E as autoridades: "como é que a gente vai fazer? Porque o gás está dentro das casas das pessoas". O que eles fizeram: adicionaram uma substância química fedorenta no gás sem prejuízo na combustão. Se você vai cozinhar qualquer coisa, coloca fogo e está tudo certo. Se você fica só no gás... é um gambá dentro da sua casa que você não aguenta. Resultado? Redução monumental e drástica de suicídio por inalação de gás. Aí vocês vão me dizer: vão se matar de outro jeito. Não me pergunte o porquê, o ser humano não é uma ciência exata. Não houve migração dos casos usuais de óbitos por suicídio inalando gás para outro gênero. O que é algo fantástico e incrível.

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