Ciro Fabres: onde está o ódio - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião06/12/2018 | 15h39Atualizada em 06/12/2018 | 15h39

Ciro Fabres: onde está o ódio

O ódio está espalhado por aí, de fato, traduzido em agressividade sem descanso 

 Tem sido cada vez mais comum ouvir ou constatar na prática que a sociedade está encharcada em ódio. É um diagnóstico genérico, porém aproximado, porque aponta para um cenário cada vez mais visível, mais presente, também potencializado pelas novas tecnologias. Esta pode parecer uma reflexão nada natalina, que seria, quem sabe, mais apropriada tão logo começa dezembro. Sabe-se que, no Natal, costuma-se cantar “Noite de paz, noite de amor”. Não há, no entanto, nenhuma condição de abstrair a realidade agressiva, transformando-a em um estalar de dedos em uma noite de paz, e depois vida que segue, com os entreveros de todo dia. O próprio Jesus, em discurso aos apóstolos, foi contundente: não veio para “trazer paz, mas espada”. E foi além: disse que veio “trazer divisão”. Claro que tudo que é dito tem contexto, e deve ser entendido no contexto em que foi dito. Mas a mensagem de Jesus exige escolha, exige lado. E agora? Feliz Natal.

O ódio está espalhado por aí, de fato, traduzido em agressividade sem descanso. Acontece que, entre nós, deu-se de simplificar tudo e atribuir o ódio de forma generalizada, a dois antagonismos, dois lados, e a virtude está no meio. Não é assim. A exatidão é uma bênção, pavimenta o caminho até a justiça, e deve ser perseguida. Atribuir o ódio a outros, sem qualquer cuidado, é cômodo, uma barbada. Será essencial identificar onde está o ódio, para tentar desmontá-lo.O ódio não está na institucionalidade, nem nas redes sociais em si, está nas pessoas. Se bem que ele possa chegar às instituições, e inundar as redes sociais, conduzido obstinadamente por pessoas. Mas, no caso das instituições, não é tarefa simples, pois elas possuem contrapesos e mecanismos de prevenção. A maioria delas foi gestada em democracia, esta maltratada senhora a ser protegida.

O ódio habita na incompreensão convicta, na reação automática a quem pensa e se expressa diferente, na incapacidade para ouvir, na irracionalidade, na forma descuidada e agressiva dessas reações, alimentadas por uma realidade feroz, individualista. Habita no desdém, na acusação leviana, provocativa. É certo que a institucionalidade, muitas vezes, exige posição ostensiva, vigorosa, o que é embaralhado de forma oportunista como expressão de ódio. Desde que preserve e reconheça o espaço do diferente, não é. Essa é a senha. 

O ódio vem de determinados atores. É preciso identificar a origem do ódio para retirar seu espaço, isolá-lo. O ódio tem origem no não-reconhecimento do outro. Antes de pensar diferente, o outro é um de nós, humanos. Que lição difícil de ser exercitada!Enfim, não deixa de ser uma necessária reflexão pré-natalina. E também política.

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros