Ciro Fabres: meu amigo oculto - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/12/2018 | 08h00Atualizada em 19/12/2018 | 08h00

Ciro Fabres: meu amigo oculto

Você certamente terá seu amigo oculto, um Edson para chamar de seu

O meu amigo oculto chama-se Edson. Estamos na época do tradicional amigo secreto em festas de final de ano nas empresas, grupos ou comunidades. Amigo secreto é uma variação da designação para o amigo oculto, mas, no caso em questão, aplica-se mais esta variante, "amigo oculto". Porque, de fato, Edson é um sujeito "oculto". Não o conheço, nunca o vi, sei de sua existência. Portanto, é oculto. Amigo propriamente dito não é. Permitam-me, porém, a licença. Foi adquirindo familiaridade com o passar das semanas, infiltrando-se nos momentos do lar, no trabalho, nas horas mais impróprias. Quando menos se espera, eis que Edson aparece, de súbito.

Você certamente terá seu amigo oculto, um Edson para chamar de seu. Às vezes, mais de um. Mas, pela insistência, Edson é o cara, no meu caso. Comecei a saber de sua existência há um ano, quando adquiri um novo smartphone. O aparelho veio com chip e número de uma linha de telefonia móvel que a operadora me forneceu. Foi a porta entreaberta por onde Edson se aproximou. Comecei a receber ligações em que o interlocutor se anunciava: "Por favor, o Edson." Cogitava de um engano, e informava que aquele telefone não se tratava do telefone do tal Edson. Ocorre que, desde então, as ligações atrás do rapaz são praticamente diárias, em determinados dias, chegam a ser três ou quatro. Fora as mensagens de texto.

Com o passar dos dias, o contexto das ligações me permitiu recolher informações sobre a vida de Edson. É morador de Passo Fundo, foi o que me informaram, e é possível presumir que anda às voltas com dificuldades financeiras. Os contatos partem de escritórios de cobrança ou de advocacia e sugerem renegociação de débitos, multas e juros. Fiquei sabendo que há dívida registrada em cartório, que tem o nome no SPC. As atendentes dos serviços 0800 já se comoveram com meu drama, pois há ocasiões em que me escapa a paciência e adota-se um tom mais ríspido para informar, pela enésima vez, que não se trata do telefone do Edson. Então, prometem retirar o número do cadastro, mas parece não adiantar, pois as ligações se multiplicam. Já fiquei sabendo que é a "vítima" quem tem de percorrer, por iniciativa própria, os labirintos do teleatendimento. É inacreditável que, com o avanço da tecnologia, essas operadoras nos submetam a tal desconforto ou embaraço.

Sendo assim, não tem adiantado. Mais dia, menos dia, chega uma nova ligação:

— Por favor, o Edson.

— Este número não é dele — respondo.

— Você conhece algum Edson?

Definitivamente, é meu "amigo oculto", vou começar a dizer.

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