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Opinião 06/12/2018 | 15h35

André Costantin: Rio-Gotham

Sofro a violência todos os dias 

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A rua Jacob Luchesi é um Brasil. Ou os vários Brasis que se descortinam diariamente no caminho entre Monte Bérico e o centro de Caxias. Um caminhão vai na minha frente com adesivos nas portas de trás da carroceria: de um lado a estampa ensanguentada do cultuado vilão de Gotham City, o Coringa; de outro, a bandeira nacional, com o tenebroso bordão “Ame-o ou deixe-o”.

Dois clichês das estradas. Duas insanidades simbólicas. Que espécie de amor este Brasil, esta pátria, exige de mim? Eu, quase um apátrida?

Certa vez driblei a morte no ônibus em João Pessoa, pela moeda que dei para o sujeito soturno que então embarcava, com uma faca na cintura; aqui na Pérola sobrevivi a um assalto à mão armada, o cara me apontando um berro 38 enquanto eu dirigia o carro pelas voltas do Monumento ao Imigrante.

Quando fui jornalista, estive no olho de um tiroteio nos campos de Jaquirana, dramas de um assalto a banco – e as balas então pareciam só “pedaçozinhos de metal”; e se Deus lá descesse, que fosse armado, como nas memórias do jagunço Riobaldo, nas veredas do Grande Sertão, de João Guimarães Rosa.

Sofro a violência todos os dias. Seguido eu morro, entre banalidades de vida e de morte desta pátria sanguinária – que agora me exige este amor incondicional. Mesmo assim eu não consigo sentir alívio ou vitória com a morte de seis bandidos ontem, outros quatro hoje, em labirintos de Ibiraiaras ou Arroio dos Ratos. Ecoa aqui dentro o assassinato de um refém, algo que já fui, algo que sigo sendo, sempre.

Acontece que na minha cabeça de cornos virados não assenta bem a miragem desta boiada verde-amarela que de repente quer se alimentar de carne humana, feito hienas de aluguel, massa de manobra. Esta maioria popular que hoje lota o estádio de futebol e se excita com o tosco gestual de metralhadora de um presidente, por certo já esqueceu as imagens da guerra urbana que se iniciou anos atrás no Rio de Janeiro.

Ao vivo, em alta definição, a TV servia nas salas de jantar dos brasileiros as cenas quentes das polícias metendo bala nos bandidos do Rio, que tombavam pelos morros cariocas. A claque aplaudia. O que sucedeu ao Rio, pouco tempo depois, passados os devaneios de Copa e Olimpíadas? Pois lá está a cidade, maravilhosa e sitiada, entrincheirada, refém de um Coringa imaginário no alto do Corcovado.

Rio, Gotham, Ser-tão Brasil. Quais as gradações do nosso banditismo? É o revólver na mão? Os fuzis? O auxílio-moradia dos juízes ricos? É o Estado parasita? O que te mata todos os dias?

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