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Opinião 04/12/2018 | 06h23Atualizada em 04/12/2018 | 06h23

Adriana Antunes: o fim 

Precisamos parar de desenterrar argumentos enferrujados para defender nossas ideias

Tenho evitado ler comentários nas mídias sociais. Se leio, logo saio e tento sair antes de me sentir mal. As pessoas travam guerras em caracteres. Se acusam, se insultam, se julgam. Cada um lê o que quer, entende do jeito que quer e fala o que quer sem nenhuma noção de bom senso. Fico pensando que depois dessa guerra toda quem irá fazer a faxina, colocar uma certa ordem, jogar o entulho para fora da estrada. Vivemos um momento tão estranho e sombrio onde as selfies não tem espaço. E se acontecem, parecem fake. As pontes precisam ser refeitas. Até as estações do ano precisam de uma ordem. Estamos em dezembro e o tempo alterna entre frio e calor, chuva e sol.

Precisamos parar de desenterrar argumentos enferrujados para defender nossas ideias. Nem tudo é disputa. A vida é muito maior que uma competição de discurso na web. É preciso colocar um freio nessa verborragia toda, até porque daqui a pouco é natal e muitos de nós estarão celebrando esse momento com orações, fé e pedidos de que o mundo seja melhor. Cuidado com a hipocrisia. Ela é uma doença contagiosa e se esconde onde menos esperamos. Às vezes está no portão da casa do vizinho, noutras numa exposição de arte e até dentro das casas, nos lares mais felizes da família tradicional. É verão e a grama cresce para além das causas e dos efeitos disso tudo, quem sabe aproveitamos e nos deitamos sobre ela, observando as nuvens e o céu, ouvindo os pássaros, deixando os gatos deitarem junto e ronronarem até pegarem no sono?

Mas para isso é preciso não ter vergonha de sermos quem somos. E tem gente que tem vergonha de tomar chimarrão na frente de casa depois que chega do trabalho, pode isso? vergonha tem que ter é de ficar na internet brigando com gente que nunca vimos. Escarrando e botando para fora nosso lado mais animalesco. O mundo está estranho e a gente se estranha nele. Parece que perdemos a capacidade de nos reconhecer, de nos olharmos no espelho e lembrarmos que somos tão pequenos e imperfeitos quanto aqueles que criticamos. Esse mundo virtual é uma grande ilusão. Não nos enganemos, ali nada acontece. A nuvem não muda de cor, nem a forma. A chuva não chega molhando nossa presa e esquecimento do guarda-chuvas. No entanto, sei que não se pode ser inocente. 

Não há mais espaço para a inocência, ainda que fiquemos em suspenso, esperando o desenrolar dessa impudicícia toda. Acho que um dia ainda vou me sentir como aquele sujeito, que varria a calçada, de vassoura na mãos e que recordava como eram aqueles tempos em o virtual substituía as conversas de boteco, em que as pessoas eram tão fora da realidade que discutiam pelas mídias sociais, mas que esqueciam que em tempos de guerra, quando feridos, as transfusões de sangue não tem cor, sexo, nem partido.

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