Adriana Antunes: eu e o guindaste - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião11/12/2018 | 09h47Atualizada em 11/12/2018 | 09h47

Adriana Antunes: eu e o guindaste

 A poesia se dá nas brechas, nas ranhuras, nas listras da faixa de pedestres

Aqui perto de casa estão construindo um edifício de 20 e poucos andares. Lá, bem no alto, tem um guindaste suspenso, que indica que a construção ainda vai longe. Um guindaste que parece um esquadro gigante, que gira e imaginariamente desenha círculos, retângulos, preenche com texturas. Um guindaste que se presta a ser girafa também, com dor no pescoço talvez, porque está assim, meio caída de lado. Poderia ser um dinossauro comendo algo. Um dinossauro em meio ao cinza do urbano, devorando o tempo do antes. Isso me lembra os episódios japoneses do Jaspion que assistia na infância, e adorava. 

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Dias atrás um aluno me disse que era tudo de papelão. Informação desnecessária. Jamais faria diferença para alguém que dava nome e vida às bonecas de espiga de milho. Lembra também aquele outro seriado, O elo perdido. Costumava assistir essas séries, acho que podemos chamar assim, que passavam na TV Guaíba, junto de meu pai. Ele trabalhava com costura, mas no horário em que eu podia ver tv, fazia uma gemada com farinha de milho tostada e se sentava comigo. Assistíamos aos episódios compartilhando colheradas açucaradas com os olhos fixos na tv em preto e branco da época. Tinha um seriado para cada dia da semana. O cardápio também variava, havia dias de bolinhos de chuva, outros de grostoli e os de gemada, claro. Frutas também tinham, porque era importante ter uma alimentação saudável, porém nunca foram o meu forte.

O guindaste ainda poderia ser um grande gafanhoto, uma releitura das pragas do Egito, em plena era moderna, a assolar a sociedade. Poderia ser, quem sabe, a vara de um pescador, sentado em seu barco de remos, esperando pacientemente pescar algo daqui do fundo, perto do térreo, onde habitamos. Então seríamos peixes, um pouco asfixiados talvez, por conta da poluição, do trânsito e das correntes nada marítimas que nos carregam de uma emoção a outra sem que tenhamos forças para reagir. Eu pelo menos, seria. Mas é apenas um guindaste que constrói mais um pedaço da cidade em que moramos. Uma máquina que preenche lacunas, levanta paredes, aproxima e afasta na mesma proporção. O guindaste pode ser a metáfora de um futuro já vivido, de uma cidade que só faz crescer. Uma cidade concreta, real, cimentada, dura. Uma cidade que precisa reencontrar seus espaços de convivência, lugares em que o lúdico e a imaginação possam aflorar. A poesia se dá nas brechas, nas ranhuras, nas listras da faixa de pedestres, porque a única marca real do ser e do tempo, é a gente, já que o guindaste nem sabe que é guindaste.

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