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Opinião01/11/2018 | 15h08Atualizada em 01/11/2018 | 15h08

Nivaldo Pereira: na caverna dos mistérios

Nos escuros de nós, há desejos brutos e riquezas, pulsões e catarses

Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Veja: há um esqueleto na entrada da caverna que guarda os mistérios da vida. Quem aqui adentra, deve saber de antemão que vida e morte são irmãs. Estamos nos domínios de Escorpião, uma jornada em direção ao núcleo do ser. Nos escuros de nós, há desejos brutos e riquezas, pulsões e catarses; luzes por acender. Sigamos os espectros de vivos e mortos escorpianos em suas narrativas. Sigamos as tochas.

Num salão da gruta, Pablo Picasso e Iberê Camargo examinam pinturas rupestres. Com olhos de águia, enxergam a paisagem emocional dos primitivos humanos. Reconhecem ali os motivos eternos da arte. Em cada risco, um risco de vida; em cada curva, um tormento e um êxtase. Porque arte é fluxo do real interior. Acolá, rola uma bola no chão de pedra. Garrincha e Maradona brincam de futebol. Entre a técnica e o truque, a contenção e o ataque preciso, expressam a garra inata que pode conduzir à genialidade e à glória. Ah, mas essa ânsia, essa fissura... Esse desejo que também atrai obsessões e autodestruição... E como viver sem intensidades?

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Silêncio: eis o salão dos escritores. Escrevem sobre as humanas luzes e sombras. Saltam facetas de médicos e monstros da pena de Stevenson; saltam crimes e redenções das linhas de Dostoiévski; vemos cegueira e lucidez no verbo cru de Saramago. E lá está o poeta Drummond, reafirmando a vida no desencanto do real. Sim, há pedras no caminho, mas nem pense em morrer: você é duro, José!

Adiante, uma mulher analisa a luz que se irradia de estranhas substâncias químicas. É a cientista polonesa Marie Curie, pesquisadora da energia que permeia a matéria. Marie descobre e batiza a radioatividade. Não importa que vá morrer pelo manejo tóxico de seus mágicos metais. Importa é garantir mais vida e cura a tantos doentes no futuro.

E segue a gruta, que se bifurca. Cuidado, meu bem, há perigo na esquina! Mas insista, resista: a força só se revela no caminhar. Canções acalentam. Paulinho da Viola entoa: “Sentimentos... em meu peito eu tenho demais...”. E Belchior responde: “Amar e mudar as coisas me interessam mais.”

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