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Saúde01/11/2018 | 15h00Atualizada em 01/11/2018 | 15h13

Lúpus: saiba tudo sobre a doença

Disfunção ocorre quando os anticorpos atacam o organismo do paciente

Lúpus: saiba tudo sobre a doença Lucas Amorelli/Agencia RBS
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

— É como se o soldado, ao invés de defender o quartel, começa a colocar fogo em tudo.

A reumatologista Melissa Bisi usa uma analogia simples para falar sobre o lúpus, uma doença autoimune crônica em que o corpo começa a ser atacado, por engano, por suas próprias células de defesa. Produzidos em excesso, os anticorpos travam uma verdadeira batalha com o organismo, resultando em manchas avermelhadas na pele, dores nas articulações, inchaço na ponta dos dedos, febre, queda de cabelo e cansaço. Em situações mais graves, são atingidos órgãos internos como rins, pulmões, coração e cérebro — o que, em alguns casos, pode ser fatal.

— Não se sabe muito bem por que começa, mas alguns fatores genéticos e outros externos podem desencadear o lúpus. Quem tem parentes com doenças autoimunes tem mais chances de desenvolver lúpus. Alguns pacientes tem a doença em remissão, ou seja, em estado de dormência, que poderá ou não se manifestar algum dia — afirma a médica.

Por serem bastante variados, os sintomas podem ser confundidos com outras doenças, fato que ganhou destaque na série de TV House por conta do bordão "Não é lúpus!", proferido com frequência pelo protagonista ao constatar que uma doença desconhecida não era, de fato, lúpus. A doença também ganhou os holofotes quando as cantoras Selena Gomez e Lady Gaga anunciaram tê-la diagnosticado recentemente.

Um dos sinais decisivos para determinar o diagnóstico é quando o paciente apresenta uma lesão na pele da face em formato semelhante a uma asa de borboleta e que piora com a exposição à luz, seja ela solar ou fluorescente. Outro tipo específico de lúpus, o medicamentoso, é desencadeado pelo uso de remédios anticonvulsivantes e anti-hipertensivos. Nesses casos, os sintomas desaparecem com a interrupção do uso. De acordo com Melissa, alguns hormônios esteroides, presentes na maioria dos anticoncepcionais, também contribuem para o surgimento de lúpus quando a pessoa já tem predisposição. Por isso, quem tem a doença precisa administrar um tipo de anticoncepcional específico.

Para cada nove mulheres há um homem com a doença

Conforme Melissa, para cada nove mulheres com lúpus há um homem com a doença. Nelas, a enfermidade é mais comum no período fértil, entre 10 e 40 anos. Já entre eles, a doença é mais incidente depois dos 50 anos. O tratamento inclui medicações, principalmente corticoides tanto tópicos (cremes) quanto de uso oral. Os casos mais graves requerem internação e, até mesmo, transplante de órgãos.

O principal exame para detecção do lúpus é FAN, sigla para fator antinuclear, que, além do lúpus, é capaz de detectar outras doenças autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto, a esclerose sistêmica e a doença de Sjögren. Ele é feito a partir de amostras de sangue do paciente e está disponível via Sistema Único de Saúde (SUS).

Flavia Vidor, 44 anos, sofre com o lúpus
A jornalista Flávia Vidor diagnosticou o lúpus há pouco mais de um ano e fez o tratamentoFoto: arquivo pessoal / divulgação

"Achava que era uma super-heroína"

O que seria um dia cheio de comemoração transformou-se em sofrimento para Flavia Vidor, 44 anos. Era 10 de setembro de 2017, e a jornalista acordou feliz para celebrar os 72 anos do pai, Vilmar. Embora o clima fosse de festa, ela se sentia desconfortável com as manchas no rosto e o inchaço nos joelhos com os quais havia amanhecido. Pouco depois do almoço, foi ao plantão, onde recebeu corticoides na veia e fez exames de sangue e uma biópsia no rosto. O diagnóstico de lúpus cutâneo articular, uma das formas menos agressivas da doença, saiu um mês depois, e ela começou o tratamento, à base de corticoides e de uma dieta controlada.

— Eu achava que era uma super-heroína, que podia fazer tudo no trabalho, com meus filhos, o tempo todo. Daí comecei a me questionar: o que estou fazendo de tão errado para o meu corpo atacar a si próprio?

Até que a doença estivesse estabilizada, a radialista precisou diminuir um pouco o ritmo, inclusive com os filhos, Helena, 10, e Leon, sete anos, que por diversos momentos precisaram ficar sob os cuidados de parentes. A rotina também passou a incluir atividades físicas, como musculação e exercícios aeróbicos, três vezes por semana.

— Tive que deixar de tomar sol. Aquilo de ficar torrando é inconcebível hoje — conta.

Alimentação

Manter um estilo de vida saudável e um olhar atento ao que se refere a boas escolhas e à qualidade dos alimentos é benéfico na melhora da imunidade. O lúpus tem um antecedente genético, mas o gatilho da inflamação está ligado diretamente a doenças autoimunes, e a nutrição trata a inflamação a partir de sua causa, de acordo com a nutricionista clínica funcional Vanessa Cavagnoli.

— Ao controlarmos esse gatilho e modularmos esse ambiente, conseguimos ajudar esse paciente. Sabe-se que alterações na composição da microbiota intestinal pode prejudicar a resposta imune e promover o desenvolvimento de diversas doenças inflamatórias. Desta forma, a dieta precisa ter papel modulador e atuar na composição da microbiota, no cuidado à exposição de compostos tóxicos como agrotóxicos e metais tóxicos e na modulação do estresse oxidativo e da inflamação, adequando a dieta do paciente quanto aos tipos de alimentos a serem consumidos e através de suplementação adequada.

Dieta rica em ômega 6, excesso de proteína, alergias alimentares, falta de vitamina D entre outros desequilíbrios nutricionais e uma alimentação rica em xenobióticos (compostos químicos estranhos ao organismo, como corantes, conservantes) estão entre os pontos a serem levados em consideração.

Veja algumas dicas da especialistas para manter a imunidade otimizada. Vanessa salienta que a imunidade baixa é um dos estímulos para o desenvolvimento da doença, e a lista a seguir serve tanto para pessoas que querem prevenir a ativação de disfunções com fundo genético quanto para pessoas que querem modular a doença por meio de dietas.

Fique atento
:: Evitar produtos industrializados no geral, ricos em gorduras de má qualidade, corantes, conservantes e edulcorantes.
:: De forma individualizada, ter uma alimentação rica em alimentos anti-inflamatórios e que traga um aporte adequado de vitaminas e minerais, é uma forma de manter uma imunidade otimizada.

castanhas , nozes , amêndoas , amendoim , oleaginosas
Foto: Zsuzsanna Kilian / freeimages

Alguns alimentos indicados:
::
Oleaginosas: fonte de zinco e selênio, nutrientes essenciais para o sistema imune.
:: Cebola: rico em quercetina, um composto bioativo que melhora sistema imune.
:: Gema de ovo: Alimento rico em vitamina D.
:: Aveia, feijões, batata yacon, ricos em fibras alimentares, que favorecem a proliferação de bactérias boas intestinais.
:: Frutas da época: ricas em vitaminas e minerais  e compostos bioativos que melhoram a imunidade. Aqui na Serra gaúcha, sou fã das frutas vermelhas (amoras mirtilos), ricas em antocianinas.
:: Sementes de chia, linhaça, sardinha: ricos em Ômega 3, um nutriente antioxidante com ação anti-inflamatória.
:: Cúrcuma e gengibre: pertencem à mesma família e possuem propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e moduladoras.

Tipos mais frequentes de lúpus
:: Lesões de pele: ocorrem em cerca de 80% dos casos. As características são manchas avermelhadas nas maçãs do rosto e dorso do nariz. Também pode ocorrer vasculite (inflamação de pequenos vasos), causando manchas vermelhas e dolorosas nas  pontas dos dedos das mãos ou dos pés.

:: Articulares: a dor ocorre, em algum momento, em mais de 90% das pessoas. Na maioria dos casos, o desconforto se dá nas juntas das mãos, punhos, joelhos e pés.

:: Inflamação nos rins (nefrite): diagnosticado em aproximadamente 50% dos pacientes, é um dos mais preocupantes. Inicialmente, se manifesta em alterações nos exames de sangue e/ou urina e, em formas mais agressivas, com pressão alta, inchaço nas pernas e urina espumosa. Também é relativamente comum a inflamação das membranas que recobrem o pulmão (pleuris) e coração (pericardite). Elas podem se manifestar como dor no peito e dificuldade de respirar, no caso da pleuris. Quando atinge o coração (pericardite), além da dor no peito, pode haver palpitações e falta de ar.

:: Alterações neuropsiquiátricas: menos comuns, podem causar causar convulsões, alterações de humor ou comportamento (psicoses) e depressão.

Fonte: Sociedade Brasileira de Reumatologia - www.reumatologia.org.br

 
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