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Opinião 09/11/2018 | 06h29Atualizada em 09/11/2018 | 07h13

Gilmar Marcílio: fale bastante 

Somos animais que encontram alívio na fala

Acordo e a manhã está chuvosa. Lembro de ter sonhado com as personagens da espetacular série americana “This is us”. É uma daquelas histórias para se emocionar e chorar. E se você já viu e não ficou arrebatado, bem, fique atento porque alguma coisa pode estar errada. Eu me surpreendo refletindo seguidamente sobre as situações dramáticas que se apresentam. O que mais me chama a atenção é que todos expõem constantemente o que sentem, colocando uma lupa sobre suas vidas. Cada fato é escrutinado, do mais comezinho ao que determina reviravoltas de proporções épicas. Pais conversam abertamente com os filhos e vice-versa. Amigos escutam uns aos outros com admirável atenção. Até vizinhos que se encontram ocasionalmente param para ouvir o que está acontecendo com alguém que parece desolado. É um mundo quase utópico, bem diferente do que a gente está acostumado a ver do lado de cá, chamado de realidade. Mas é um bom exercício para aguçar a nossa sensibilidade e reavaliar como estamos agindo com as pessoas quem nos é caro. Aprecio essa espécie de jogral em que cada um clareia o que o incomoda ou fascina. E num ato de respeito e compaixão recebe dos interlocutores plena disponibilidade. Para que isso se concretize, precisamos aprender a partilhar a nossa jornada emocional. Deixar as banalidades em segundo plano e colocar em evidências as feridas, iluminando o que nos paralisa.

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Mulheres são artesãs mais habilidosas quando o assunto é este. Nós, cheios de reservas e interditos, calamos, acreditando que isso é sintoma de virilidade. Engano. Não existe maneira melhor de lidar com o que estremece a alma do que dar voz ao que nos perturba. Somos animais que encontram alívio na fala e que, acima de tudo, se beneficiam com pontos de vista diversos. Afinal, a percepção que se tem do mundo é o resultado das circunstâncias que se apresentam. Um exemplo para ilustrar: por esses dias, uma amiga com quem tentava em vão fazer contato havia semanas, me disse que depois de anos solteira estava namorando. E completou: “Neste momento, esse amor é prioridade absoluta; nada é mais relevante, nem meus amigos. Espero que entendam.” Pensei que teria sido tão melhor se tivesse me dito, desde o primeiro telefonema, o que estava se passando. Afinal, ela está fazendo uma escolha. Só isso. Mas não, fiquei imaginando todos os cenários possíveis, e nesses casos nossa mente é fértil e tende a supor o pior.

Talvez você esteja pensando que é bem cansativo analisar-se o tempo todo. Sim, demanda tempo e paciência, mas o resultado sempre compensa. É um trabalho com retorno imediato, pois evita tantos mal-entendidos. Cada dia é um novo laboratório que vai sendo construído para testar a nossa capacidade de gerir os fatos. Diferente da ficção, é impossível fazer um ensaio para o que projetamos ficar melhor. Bom mesmo é expor-se, compartilhar. Embora a existência seja uma obra em aberto, o que essa atitude desencadeia é uma dose cada vez maior de honestidade nas relações. Vale a pena o esforço.

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