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Opinião30/11/2018 | 06h00Atualizada em 30/11/2018 | 06h00

Gilmar Marcílio: adote um filósofo

Observo e reflito para, em seguida, me relacionar melhor com meus pares

Existirá algo mais prático do que a filosofia? Nunca a entendi só como um sistema teórico de ideias, mas sim como uma preciosa oportunidade para repensar valores e posturas e inseri-los no cotidiano. Ler um texto de Aristóteles, Montaigne ou Sartre é abrir caminho para a ampliação da consciência que, numa instância posterior, nos joga no mundo com mais lucidez e desejo de ação. O devaneio é apenas o momento que precede a capacidade de interferir na ordem do universo. Observo e reflito para, em seguida, aprender a me relacionar melhor com meus pares. 

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Talvez por isso não tenha cedido à tentação da vaidade intelectual. O que ignoro continua ocupando um espaço muito maior do que os fragmentos que assimilo e vão impregnando meu cérebro. E o mais fascinante disso tudo é que nada é estático e nenhuma tarefa estará concluída. O conhecimento se dá em camadas e seria muito pretensioso acreditar que um dia chegarei ao seu centro. Tudo é mera investigação, um tatear hesitante dentro da noite. Minha gratidão continua sendo dirigida a esses homens e mulheres que afastam a grade da prisão em que estou (estamos) encerrado. Mantenho-me também próximo a um considerável número de poetas para que eles, em caso de emergência, me socorram. Preciso acreditar que a existência não está circunscrita à ordem do banal, do cumprimento de tarefas ordinárias que apenas nos ajudam a matar o tempo.

É provável que tenha sido com essa mesma perspectiva que minha amiga Morgana Sage, uma das professoras mais talentosas que conheço, instituiu um programa de estudos chamado "Adote um filósofo". Deixando de lado a reverência e imprimindo um impagável senso de humor às suas aulas, vai propondo aos alunos uma pausa no angustiante momento de preparação para o vestibular. Assim, eles vão entendendo melhor as razões de estar inseridos numa sociedade cada vez mais pragmática e racionalista. Aprendem o valor da subjetividade. Voltam a lembrar que nem tudo precisa apresentar resultados imediatos. Analisam, ponderam, mastigam lentamente o que a mente vai recebendo. E levam para suas casas esses novos amigos que os ajudam a seguir com mais leveza nesta etapa de grandes decisões. 

Seguindo o princípio proposto pelo suíço Alain de Botton, buscam no cotidiano e na leitura dos sinais de sua época a compreensão do que os move. Ter o privilégio de ser inserido desde cedo nesse mar de possibilidades merece ser reverenciado. Para tanto é preciso tirar a sacralidade e o formalismo com que costumamos receber esse patrimônio que há séculos está à nossa disposição. O resultado é que nos tornaremos seres humanos melhores, mais resistentes à ditadura dos conceitos herdados. A relação com as demais pessoas acaba se revestindo de frescor e nossa arrogância diminui consideravelmente.

Portanto, não adie mais e vá até a livraria ou biblioteca mais próximas. Uma multidão de seres está aguardando pacientemente por essa sua decisão. Eles lhe serão muito úteis, mais do que os objetos pelos quais nos deixamos seduzir com tanta facilidade. Aumente sua família. Decida-se hoje mesmo pela adoção. Bons candidatos é que não faltam.

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