André Costantin: óleo queimado - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião29/11/2018 | 05h00Atualizada em 29/11/2018 | 05h00

André Costantin: óleo queimado

Faz uns dois três anos que os caminhões da uva não vêm mais

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

- Êta frio que não larga da gente. É quase dezembro, mas baixa a madruga e vem esse vento pela rua, entra sacana pelos papelões. Dia desses pego a estrada e vou de trechero pra Florianópolis ou Salvador, como fez um mano velho, três meses ele caminhou. Hoje foi duro. Juntei só tralha que não valia nada, aquele carrinho de merda quebrou na metade. Amanhã vejo. Nas sinaleiras com os gringos só uns trocados pra cachaça e olha lá, se fosse cachaça. Bueno, o negócio agora é pegar o lugar pra dormir nos fundos da cooperativa velha, que pelo menos lá tem o telhado e um chão mais alto que a rua. Estranho, faz uns dois três anos que os caminhões da uva não vêm mais. Olha já o vento frio. Vâmo lá ver a rapaziada, se entortar até dormir, rindo dessa vida.

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(O papeleiro chegou como de costume nos fundos do antigo prédio da Cooperativa Vinícola Aliança, pela rua Leonel Mosele. Os papelões e trapos estavam amontoados na rua, um cheiro forte no ar. Haviam naquele dia passado uma grosseira camada de óleo queimado em todo o patamar onde dormiam os moradores da rua, outrora estaleiro dos caminhões de uva.)

- Na corrente safra, o produtor associado Otavio Giacomoni, da Capela Nossa Senhora das Neves, Travessão Thompson Flores, fez chegar três mil quilos de uva bordô e cinco mil quilos de uva Isabel, tendo toda a uva boa qualidade de maturação e graduação. Entre os meses de outubro de 1922 e março do corrente ano, o produtor retirou junto à Cooperativa um lote de 200 garrafões empalhados, 300 rolhas de cortiça, 30 kg de sulfato de cobre. Também neste período solicitou três visitas técnicas do nosso agrônomo. Página 9 do Livro de Registros e Controles da Cooperativa Aliança, Caxias, 3 de abril de 1923.

(Li estas coisas, três anos atrás, folheando livros empilhados no canto de uma sala de madeira da cooperativa, sob uma infiltração que descia do telhado, pela parede.)

- Puxa, já Natal, de novo! Acho que hoje vamos começar a decoração das prateleiras. O caminhão vem esta semana trazendo mais carga da cooperativa nova. Neste ano a gente poderia montar a árvore perto dos espumantes. Nossa!, como têm saído bem os espumantes, cada ano mais. Onde ficaram aquelas bolas novas, grandes, lindas, vermelhas?

(Isso ia pensando uma funcionária do varejo da cooperativa, na volta do almoço, passando pela frente do antigo prédio com jeito de ruína; um passarinho entrava e saía pelos vidros quebrados das janelas frontais, talvez indo fazer o ninho nas pilhas dos livros antigos).

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