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Opinião22/11/2018 | 06h34Atualizada em 22/11/2018 | 09h21

André Costantin: Mollejas & nus 

Experimentei mollejas quando entramos no Uruguai, por Jaguarão, na companhia do escritor Aldyr Garcia Schlee, em março de 2017 

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Esta crônica se insinua há dias, melancólica, com o título "mollejas". Mas no exato agora encontra outra palavra no ar – e por certo vai desaguar de outra forma, transbordando. Experimentei mollejas quando entramos no Uruguai, por Jaguarão, na companhia do escritor Aldyr Garcia Schlee, em março de 2017. Em equipe, empreendíamos longa viagem pelo Pampa para registrar fragmentos biográficos desse grande personagem e ainda maior amigo, Aldyr.

Ao batermos no primeiro restaurante do lado Uruguaio, Schlee pediu as carnes assadas. E uma porção de mollejas. Suaves, quase adocicadas, pareciam toques de veludo, tal a pronúncia da palavra em espanhol; na boca, testemunhavam o sagrado que há na carne do animal. Aqui deste lado, nação de boiadas, as mollejas são quase desconhecidas do gosto das pessoas. Correspondem ao timo, glândulas do pescoço do boi.

Nossa viagem seguia para o sul, entre mollejas, memórias e revelações da aventura existencial do escritor. Por destino o Estádio Centenário de Montevidéu, onde jogariam Uruguai e Brasil, diante dos olhos molhados do inesquecível Aldyr Schlee, o criador da camisa amarela da seleção brasileira de futebol, nos anos 1950.

A outra palavra do título – "nus" – surge agora. Um amigo comenta a nova polêmica paroquiana: a censura da prefeitura à visitação de escolares a uma exposição de artista plástico na câmara de vereadores, cujas telas compõem temática de corpos nus e iconografias contestadoras (como se não fossem escandalosos os diabos pelados e luxuriosos de Locatelli no teto da Igreja de São Pelegrino, ou ainda mais vexatórias certas sessões do legislativo local).

Então: como aqui chegaram estas duas palavras tão diversas, mollejas e nus?

Abro o freezer de casa e encontro uma embalagem de mollejas congeladas, vindas da fronteira. Elas trazem memórias de Schlee. Ele morreu na semana passada, aos 83 anos, em Pelotas. Fronteiriço, libertário, andava nos últimos anos muito desgostoso com a apropriação e o uso indevido do símbolo que ele criou, a mística camisa canarinho, pelas massas e mentalidades embarcadas na nova onda conservadora do Brasil.

Quanto aos corpos "nus", que por uma sucessão de equívocos foram parar no átrio do legislativo, lugar de ares e olhares enviesados à arte, eles também dizem de um conjunto de tragédias estéticas reveladoras do nosso tempo: do trágico uso da camisa de Aldyr Schlee pelos movimentos reacionários ao macabro controle das expressões artísticas pela miopia política entronada nos poderes.

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