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Opinião01/11/2018 | 07h56

André Costantin: Hy-Brazil

O que se comenta por aí é que o Astronauta Brasileiro vai subir de novo a rampa do Palácio

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O Astronauta Brasileiro me aborda na rótula da Casa de Pedra – ele sempre surge do nada, assim, um assalto suave – e me pede algo naquele esquema, um rango uma passagem uma pedra pra fumar. Eu, cliente otário da Missão Hy-Brazil, vou ao cofre do carro, aciono as moedas reservadas para as viagens espaciais da Pérola das Colônias.

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Dias antes eu ia de bike em alta gravidade ali por perto do mesmo trevo, quando o ônibus urbano me comprime, naturalmente, no cordão da calçada. O Astronauta Brasileiro, que ia ao volante da nave, me olha pelo espelho, atrasado, levando seus 15 quilos de experimentos científicos nacionais, ao custo de 10 milhões de dólares do assento espacial, alugado à Nasa em um foguete russo alçado no Cazaquistão.

Outubro de 1906 em Paris. Um solitário inventor brasileiro ensaiava o vôo em uma estrutura mais pesada que o ar, que viria a ser um avião – invenção antigamente sonhada que pipocava pelo mundo. Quando Santos Dumont pousou, o Astronauta Brasileiro estava lá e roubou-lhe uma selfie, cristalizando o largo sorriso que justo um século depois ele daria em rede nacional de televisão.

Senhor Astronauta, estamos agora ao vivo! O que o Senhor tem a dizer à Nação neste momento inesquecível da Missão Hy-Brazil? – Olha, eu gostaria de mandar um beijo para a minha mamãezinha, lá em Bauru; ela sempre acreditou em mim, que um dia eu chegaria lá.

Era 2006, a nação vivia outra de suas grandes ilusões. Entrávamos em delírios siderais de primeiro mundo. O Astronauta Brasileiro sobe a rampa do Palácio de Neymaier (das ilusões modernistas dos anos 50), é recebido pelo presidente da República (das ilusões lulistas, “o cara”, dito por Obama). O Astronauta Brasileiro recebe a Ordem Nacional do Mérito. Depois inicia uma promissora carreira de palestrante motivacional, com pensão militar.

Quanto ao progresso da ciência nacional... Bem, amigo Bonner, não se tem notícias muito precisas do salto qualitativo das nossas experiências espaciais ou subterrâneas desde então. Nada além da muita soja e muita madeira que escoamos pelos rios amazônicos. Microgravidades. Parece que o vôo do 14 Bis na França ainda bomba mais no Google.

O que se comenta por aí é que o Astronauta Brasileiro vai subir de novo a rampa do Palácio, de mãos dadas com um novo anfitrião (o das ilusões bolsomessiânicas). Que Deus, brasileiro desde sempre, está acima de todos. Acima da Pátria, acima dos turistas espaciais: Ele paira sobre a Hy-Brazil, a mítica ilha imaginária do Atlântico.

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