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Opinião15/11/2018 | 06h24Atualizada em 15/11/2018 | 06h24

André Costantin: Hebe morreu 

Do conjunto de realidades que neguei em sono prolongado, estava Hebe Camargo

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Leio nota em jornal acerca de uma super-exposição que será produzida sobre a Hebe Camargo. Compartilho com o parceiro de trabalho ali da escrivaninha ao lado, dizendo-me impressionado com um projeto destes, de vultosos recursos, para evocar a biografia de uma personalidade de tevê, em vida.

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Então ele ma dá uma notícia, algo trágica: a Hebe morreu.

Hebe morreu? Senhor! – faz tempo?

O viés trágico da novidade não tem tanto a ver com o adeus da atriz e apresentadora, que enfim a morte é coisa da vida. Mas revela a tremenda alienação de uma fatia considerável do mundo que eu me inflingi ao longo dos anos, como método eficaz de sobrevivência – uma espécie de antibiótico à existência de criaturas do tipo Sílvio Santos e tantas outras tragédias estéticas do Brasil contemporâneo.

Já que a realidade do mundo não precisa de mim (isso seria Heidegger, ou Borges?), dou-me ao direito de negar parte do real. Pois logo também morrerei e no minuto seguinte o contador da luz seguirá rolando os dígitos, os sinos de Monte Bérico anunciarão a festa da padroeira, os carros continuarão encalacrados na Rota do Sol.

Do conjunto de realidades que neguei em sono prolongado, estava Hebe Camargo. Mas aí teve um detalhe. Fui induzido ao erro de crer na eternidade de Hebe por culpa do Farroupilhão. Tento explicar. Trata-se de um grupo de pessoas quase normais que andam de bike pelas fantásticas trilhas de Farroupilha e adjacências.

Quando sucede ao grupo deter-se em algum ponto do percurso, e as conversas e teses cósmico-existenciais tomam conta do ambiente, um dos puxadores (com seus 100 quilos de massa corpórea, de singelo codinome Puka) solta um dos jargões da tribo em alta voz: “quem quiser conversar que vá no programa da Hebe”. E a trilha recomeça, ato contínuo, alucinante.

Daí que nas andanças do Farroupilhão, de vez em quando, eu fazia a imagem de Hebe conversando, infinita. Até que o parceiro aqui do mundo real e imediato me dá a notícia. Como também me diz da lápide que um industrialista daqui ganhou do outro lado do oceano, me avisa que o monumento da bota da Itália na avenida Júlio foi detonado por um carro há meses & outras efemeridades da Pérola das Colônias.

Por isso, quando volto para casa, vou desvestindo partes da realidade que eu não consigo carregar pela Matteo Gianella e depois ao longo da Jacob Luchesi. Chego em Monte Bérico profundamente interessado no ratão do banhado que apareceu por ali, ou no intrigante sumiço das aranhas caranguejeiras nas redondezas da casa.

 
 
 

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