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Opinião08/11/2018 | 06h30Atualizada em 08/11/2018 | 06h30

André Costantin: Des(Moro)nando 

O noticiário traz a entrevista inaugural do juiz Moro, agora superministro da República

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Odeio gerúndios. No entanto, entretanto e portanto, assim começa esta crônica: um trocadilho podre. Engraçada a mente da gente, era para ter escrito “pobre”. Saiu “podre” – deixa assim. Os dedos em contato com as teclas obedeceram não ao cérebro, mas o espírito.

Cansado em casa depois de um longo dia de trabalho, sento na poltrona antiga que juntei na calçada de Farroupilha. E, por preguiça mental, ligo a tevê. O noticiário traz a entrevista inaugural do juiz Moro, agora superministro da República.

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Levanto e escrevo de cabeça quente. Pulsa um sangue por trás deste azul dos olhos. O mínimo que todo leitor merece é humor vital dentro das palavras. Eu pensava hoje mesmo pela rua o que seria do juiz quando descesse do púlpito e tivesse que falar com as pessoas do mundo, despido dos mantos fúnebres do judiciário.

Então agora vejo a nova e pobre teatralidade do mais recente estandarte nacional, por quem homens e mulheres do meu condomínio até ontem umedeciam as roupas do corpo no frenesi das redes sociais. Vejo o herói desafinando a voz, olhos escapando para os lados, pendurado a uma caneta bic e alguns papéis, um copo d’água tapado com guardanapo – medo do pó ou alusão ao cálice no altar da missa?

Detecto os símbolos da imagem. É o meu saber. Quem sou eu? Sou quase ninguém. Uma espécie de detrito, um pária social – é o que serei ao escrever isso. Mas eu, anti-herói de quinta categoria do quintal da nação, sem auxílio-moradia, posso julgar a iconografia do juiz desmoronando em sua primeira performance realmente pública.

Isso não tem nada a ver com política. Meras questões simbólicas que suplantam o real. Queres saber? Acho que faz sentido que o ex-presidente e outros mais fiquem lá no seu cantinho do pensamento por um bom tempo, como o Senhor mandou, Meritíssimo, com certas razões. Ou seria, agora, Vossa Excelência?

Mas eu lhe julgo simbolicamente pela sua aliança de ouro da mão esquerda e a aliança moral da mão extrema direita, dissimulada há tanto tempo e agora deflagrada, beijando prontamente a boca do novo poder, que se insinua totalitário. E por ter transformado, com seu ímpeto de Capitão América, a cidade de Curitiba em uma espécie de Meca do Brasil messiânico – rótulo com o qual não concordo, por admiração que tenho à capital dos pinhais.

Qual será a sua Constituição agora, jurada à direita do trono? Minha Lua em Leão reconhece bem os traços do teu signo. Para dizer bem, nunca escrevo de cabeça fria. Todavia, vou deixar este texto repousando até amanhã.

 
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