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Opinião06/11/2018 | 08h40Atualizada em 06/11/2018 | 08h40

Adriana Antunes: saudades

Falar da casa da infância é voltar no tempo

A minha casa de infância não existe mais. Lembro do dia em que ela fora destruída para que se pudesse fazer outra, maior, com mais quartos, com sala e cozinha separadas e banheiro dentro. A casa nova realmente ficou mais espaçosa, mais segura, mas nunca mais foi igual a casa de antes. 

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Havia na frente da casa de infância um pinheiro que crescera graças ao olhar distraído dos adultos. Ao lado dele, um plátano que emprestou por anos seus galhos para que um balanço pudesse existir ali e fazer a alegria das crianças, depois do tema da escola. Era um ponto de encontro com o brincar. O pátio imenso que circundava a casa era o meu fragmento de mundo, cheio de formigas, caramujos, ovos do cobra e aranhas de todos os tipos. Era uma casa de madeira, pintada de azul, e era uma casa que precisava das manhãs e das flores para abrir as portas e janelas. 

Falar da casa da infância é voltar no tempo, num tempo em que as ruas não eram asfaltadas, onde se sabia o nome de todos os vizinhos ao redor e onde a vida era devolvida aos dias. Hoje não habito mais nem a casa nova, que já tem quase 30 anos. Mas quando ouço o galo cantar, completamente desregulado em seu horário, lembro do rosto absorto de meu pai costurando casacos, de minha mãe metida entre a horta e o jardim, que se misturavam tanto que pés de tomate nasciam ao lado de gerânios, da sombra das árvores, das laranjas de umbigo que viravam merenda na escola, do pé de nogueira que era outro ponto de encontro de amigos, dos banhos de rio e do som do sino

Mas não pense que sou nostálgica. O passado pertence ao passado. Gosto de lembra-lo porque me lembra quem sou, de onde vim, de como as coisas eram e no que se transformaram. Somos seres em viagem constante, habitamos lugares e tempos, mas alguns, como a memória, já estão tão distantes, que não há mais como ficar neles. Rememorar é uma forma de juntar pedaços. Aprendi a gostar de música com minha nona, por exemplo, que morreu há seis meses. Lembro de nós duas cantando um canto que esquadrinhava o quintal lá na colônia, e entre nossos olhos e vozes, subitamente o tempo parou. Talvez essa seja uma crônica de saudades. Então recorro a poesia de Jayme Paviani e reescrevo aqui os versos de que mais gosto: "minha infância montou num cavalo de pau e nunca mais voltou".

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