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Opinião 27/11/2018 | 06h13Atualizada em 27/11/2018 | 06h13

Adriana Antunes: filosofia do caramujo 

Chega uma hora na vida em que queremos nos tornar a pessoa que nascemos para ser

Enquanto escrevo, chove. Talvez a alguns anos atrás eu nem percebesse a chuva. A vida, o trabalho, as necessidades mais urgentes não me deixavam sobrar tempo para olhar para fora. A busca era outra. Buscamos tantas coisas neste mundo, não é? Depois, vamos nos dando conta que mesmo conquistando o que desejamos, o vazio ainda existe. Aí, nos damos conta de a busca era realmente outra. Chega uma hora na vida em que queremos nos tornar a pessoa que nascemos para ser. Desde o primeiro momento que abrimos os olhos, buscamos por respostas, mas só com a maturidade procuramos o que importa de verdade. Viver é confuso. Demora para descobrirmos que a nossa natureza é um recurso e não um refúgio, que a angústia diminui na medida em que vamos nos aceitando. Isso parece autoajuda, mas não é, isso é poesia. Isso é Manoel de Barros, poeta matogrossense, que morreu em 2014. Está lá em seu livro Concerto a céu aberto para solos de aves, que um dia, para que se possa despertar, é preciso ser amanhecido por uma ave. E para ouvir o som de um pássaro, é preciso desacelerar.

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Neste mundo de velocidades, metas e prazos que precisam ser cumpridos; em que o dinheiro é mais importante que as pessoas; em que se busca por identidade achando que ela é sinônimo de status, aprender a respeitar o próprio tempo é um desafio imenso. Por isso que a poesia de Manoel é importante, porque ele fala das desimportâncias, das desutilidades, dos caramujos que gosmam a pedra, ajudam as árvores a crescer e que sabem muito mais do quintal de casa do que nós. Desaprendemos o nome dos pássaros, das flores, não sabemos distinguir uma planta de outra, do seu período de cultivo, não reconhecemos as fases da lua e não conseguimos dormir como fazem os gatos. Somos obstinados pelo concreto. Amenizamos nossa ambição dizendo que queremos ter uma vida mais confortável.

No entanto, esse mesmo conforto não impede que envelhecemos, nem que a insônia não nos consuma durante a madrugada. Precisamos aprender a ser mais pacientes. A desacelerar quando estamos acelerados. Precisamos aprender a seguir a nossa parte mais lenta, que é justamente a que ouve o som dos pássaros e percebe a chuva caindo. Não que isso vá resolver todos os problemas, mas quando nosso coração está disparado e a mente girando de modo insano, mal conseguimos respirar e aí nosso medo cresce e podemos adoecer. Precisamos, assim como os caramujos de Manoel, aprender a fazer uma pausa no corpo e no vida, no coração e na mente, e permitir-se buscar um ritmo mais harmonioso, de acordo com o que nascemos para ser.

 
 
 

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