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Opinião26/10/2018 | 13h24Atualizada em 26/10/2018 | 13h28

Pedro Guerra: seja um escorpião e não um dinossauro

Os dinossauros foram extintos. Os escorpiões não

Pedro Guerra: seja um escorpião e não um dinossauro Antonio Giacomin/reproduçao
Foto: Antonio Giacomin / reproduçao

Durante a última semana eu estive em uma feira do livro que ocorreu em outra cidade. Como de costume, na minha cabeça já estava tudo orquestrado: eu falaria sobre a escrita e o amor com os adolescentes que estariam me assistindo e fim de papo. Dito e feito. Conversamos, rimos, estabelecemos trocas incríveis. O problema mesmo foi no segundo turno, quando eu cheguei na feira e as mais de 500 cadeiras estavam ocupadas por crianças de 5 a 8 anos. O problema? Eu nunca palestrei para crianças.

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Automaticamente, lembrei dos escorpiões. Não é todo mundo que sabe, mas eles são um dos animais mais antigos da Terra. A gente até pode pensar que isso não é grande coisa, já que diversos animais parecem existir há bastante tempo, mas quando descobrimos que os dinossauros habitaram o planeta há aproximadamente 200 milhões de anos e que os escorpiões já existem há mais de 400 milhões, percebemos algo curioso. O que exatamente? Bem... Os dinossauros foram extintos. Os escorpiões não.

Comecei a me questionar qual seria o motivo pelo qual os escorpiões ainda sobrevivem. Durante as minhas pesquisas, aprendi que as mais de 2 mil espécies conseguem viver em temperaturas que podem variar de 0 a 56 graus. Sim, o escorpião é exatamente aquilo que todos nós deveríamos ser, principalmente diante de situações em que a vida parece querer nos desafiar. Se eu tivesse que resumir aquilo que deveríamos aprender com os escorpiões? Bom, eu diria que temos que ser sujeitos adaptáveis.

Com o microfone em mãos, percebi que não poderia travar o mesmo discurso utilizado com os adolescentes. Não só os pequenos não entenderiam, como também não sofreriam o mesmo impacto. Crianças querem ouvir perguntas, crianças querem responder, crianças querem mostrar que sabem as respostas, e, principalmente, crianças são curiosas. Diferentemente dos mais velhos, a plateia infantil é inteira e constantemente ativa. O desafio? Domar mais de 500 crianças ao mesmo tempo.

Acabei dominado pela surpresa. Enquanto transitava o meu discurso ora com a voz em tom mais alto, ora em tom mais baixo, percebi que aos poucos captava a atenção de mais e mais crianças. Gesticulei, fiquei na mesma altura que os seus olhos, procurei provocar algumas risadas, e até mesmo utilizei a minha maleta de livros como um objeto que guardava algo valioso (o que não deixa de ser verdade) e totalmente secreto. A missão deles? Descobrir o conteúdo.

Enfim. Não sei se você reparou, mas terminei todos os parágrafos desta crônica com uma pergunta. Fiz isso de propósito, pois é assim que devemos ser: curiosos. Mais do que isso, precisamos ser adaptáveis, precisamos saber nos moldar diante de cada nova situação. Faça calor ou faça frio, seja sob holofotes ou na escuridão de um apagão, seja com crianças, adolescentes ou adultos, a tarefa é provocar-se, permitir-se, malear-se, descobrir-se e adaptar-se. Fazendo isso, seremos todos escorpiões. Fazendo isso, sobreviveremos.

OBS: Gratidão aos escorpiões pela lição aprendida. Agora eu sei que até mesmo um livro infantil eu posso lançar se quiser. Porque quando a gente quer mesmo, a gente se adapta. E, vai por mim... Dá certo.

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