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Opinião15/10/2018 | 06h35Atualizada em 15/10/2018 | 06h43

Marcos Kirst: nem Haddad nem Bolsonaro

Quem será, ao final das contas, o grande derrotado após as eleições deste ano?

Sim, nem Haddad e nem Bolsonaro. Ao findar da campanha eleitoral deste marcante ano de 2018, o maior derrotado terá sido o processo civilizatório no Brasil, representado por um batalhão de vítimas. A primeira delas: a qualidade do debate de ideias. Morreu o debate de ideias. Discutir, de forma madura, propostas de governo e de sociedade entre os eleitores foi substituído pelo extravasar de veneno, de ódio, de fel, de amargor, de raiva e de violências. Convencer o outro que pensa diferente foi trocado por destruir o outro que ousa pensar diferente. Enterrou-se a civilidade, a grande perdedora das urnas em 2018.

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O resultado final dessas eleições, seja ele qual for, trará embutido o recado de que os opostos se repelem e que a sociedade brasileira, em sua maioria (salvo as raras exceções de praxe), optou por acolher uma postura estranha de que é lícito endemonizar e massacrar os contrários. Conviver com a diferença é prática que vem sendo varrida para a lata do lixo no país pelos brasileiros. Ninguém está nem aí para qualquer espécie de ambiente, seja ele natural ou social ou emocional ou humano. O negócio é jogar no ventilador, se abaixar e ver no que dá. A molecagem tomou conta. Adotou-se a postura do gato malandro, que chacoalha a escada e é o primeiro a escapulir porta afora a salvar o próprio couro assim que a estrutura desaba, sem arcar com as consequências do que fez, eximindo-se das responsabilidades. Um país de gatos malandros, de todos os matizes, sob todas as bandeiras, camuflados em todos os discursos. Todos.

Nesse contexto, a multidão de perdedores é incontável. Perde o passado, que parece não ter mais relevância em seu papel de ensinar com os erros ancestrais. Perde o presente, em que o convívio fraterno está comprometido pelo espraiar do ódio e da intolerância. E perde o futuro, que se embasa em estruturas inumanas, não civilizatórias, carcomidas pelo cupim do rancor e das más intenções mútuas e recíprocas. O que esperar de uma sociedade que aposta na desagregação como alternativa? Que opta pelo ódio, pelo veneno, pelo desamor, pela arrogância, pela surdez coletiva, pela desarmonia, pela violência manifesta em todas as formas possíveis? O suicídio social é completo quando as nuvens pesadas vêm de cima, de baixo, da esquerda, da direita e do alto. Quisera poder ser mais leve nesta crônica de segunda. Lamento. Não deu. Depois dessas eleições, tentarei renovar meus votos, no Natal e no Ano Novo, pela retomada da convivência civilizada entre as gentes desse país, na esperança imorredoura de não brindar sozinho.

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