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Opinião12/10/2018 | 06h00Atualizada em 12/10/2018 | 06h00

Gilmar Marcílio: tudo flui

No rio dos afetos, guardo a certeza de amar e de ter sido amado

Tenho refletido muito sobre a filosofia dos estoicos e tenho lembrado constantemente da tia Pasquina. Foi a pessoa mais doce e amável que passou pela minha vida. Desde o meu nascimento até o dia de sua morte moramos juntos. Quando respirou pela última vez, eu estava segurando as suas mãos e olhando para o seu cabelo nevado. Foi triste e comovente. Ela só nos pedia isso: estar em casa. Não gostava de hospital ou qualquer saída para ir ao médico, fazer exames. 

Felizmente, as duas últimas semanas foram passadas em seu quarto, na companhia das pessoas a quem queria bem. A tia foi a alegria da minha infância. Como ela não sabia escrever, passávamos as tardes no sótão da casa, eu tentando fazer com que aprendesse a assinar o seu nome e ela colorindo os desenhos que um amigo trazia da cidade. O mundo cabia naquele lugar mágico, apartado dos ruídos e das urgências. Nenhum dos dois usava relógio. O tempo tinha outra medida. Só descíamos para a cozinha quando começava a escurecer, pois não havia energia elétrica. Ao seu lado sentia-me protegido, abrigado, mesmo nas ocasiões em que os temporais me assustavam.

Havia também um poço de água cristalina, em meio ao potreiro, onde íamos matar a sede toda tarde de verão. Aproveitávamos para colher barba de pau das árvores que pareciam estar retornando para o centro da terra, velhíssimas que eram. O sol, filtrado pelo bosque, emanava um frescor que nos deixava lânguidos, com o corpo lasso naqueles dias estivais. A tia sempre se lembrava da época do amadurecimento das amoras brancas, minhas preferidas. Colhia-as em seu chapéu de palha e as entregava a mim, em quantidade generosa.

Hoje, alguns anos depois de sua partida, sempre que leio Epicuro, Epiteto, Marco Aurélio e Sêneca, mestres a quem reverencio, lembro dela. Nunca a vi reclamar de nada, mesmo ao sentir dores excruciantes nas feridas que desenhavam a dor em suas pernas. Aceitou tudo com a serenidade de uma alma iluminada. E quando não conseguiu mais caminhar, entregou-se tacitamente aos nossos cuidados. Foram anos de amor incondicional, de tarefas que demandavam certa abnegação de nossa parte, mas que era retribuída com um sorriso permanente e o agradecimento que seus olhos demonstravam. Minha mãe foi seu anjo da guarda, deixando tudo de lado para que nada lhe faltasse. Que mulheres bondosas tive a felicidade de ter ao meu redor. O que ainda não tinha assimilado nos livros, foi-me entregue como exemplo. Muitas vezes, cansado, desejoso de estar com meus amigos, não compreendi as lições que me estavam sendo dadas. Hoje, com essa saudade mansa que mais consola do que machuca, tenho uma gratidão que não cabe no significado das palavras.

Tudo flui. No rio dos afetos, guardo a certeza de amar e de ter sido amado. Um contínuo transbordamento que me faz gastar a vida como se fosse um pródigo rei.

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