Gilmar Marcílio: jovens e cansados - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/10/2018 | 06h00Atualizada em 19/10/2018 | 06h00

Gilmar Marcílio: jovens e cansados

Desabafam dizendo que só não precisam competir quando estão dormindo

Converso com um grupo de meninas e rapazes sobre alguns temas da atualidade. Seus pensamentos são ágeis e os percebo bem informados acerca de tudo. Mantêm um vívido interesse em absorver o que lhes chega através de leituras, celulares, dos embates que estabelecem com colegas. Sei que podem não ser a regra, mas me encanto em perceber como essa geração está se formando com um agudo senso crítico, opinando constantemente. Mas isso tem um preço que, num primeiro momento, me passa despercebido. 

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Porém, noto certa ansiedade na fala, como se precisassem mostrar ao mundo que estão cumprindo o que lhes é exigido. Parecem felizes, mas uma sombra paira em meio às frases e ao olhar que brilha. Júlia, mostrando o livro que está lendo no momento, os novos ensaios de Yuval Harari, desabafa, dizendo que se sente exaurida por receber tantas cobranças. Sim, eles estão cansados. Ao acordar já são lembrados pela agenda do telefone das mil atividades que precisarão cumprir ao longo do dia. Some-se a isso algumas horas de estudo preparando-se para o vestibular e a mente parece estar esgotada bem antes do início da noite.

Mas o que mais me tocou em sua fala foi isso: "O que me preocupa é que todos parecem orgulhosos desse excesso, como se o descanso fosse uma transgressão ao qual devêssemos nos dedicar cada vez menos, pois o mercado exige muito de nós. Pais, professores e amigos também. Só não estamos competindo quando dormimos." Deve ser muito pesado corresponder a tantas expectativas. Ter sucesso em tudo. Ser constantemente ativo. Essa tendência se acentua na medida em que a tecnologia invade quase todas as instâncias de nossa vida. Precisamos absorver montanhas de dados, sob o risco de sermos considerados obsoletos e de sofrer discriminação por nossa falta de interesse em saber o que, convenhamos, na maioria das vezes pertence à ordem do insignificante. Não faço parte do coro dos queixosos. Ao contrário, esforço-me permanentemente em extrair o que há de mais positivo nos fatos e nas pessoas. Seguidamente recebo o rótulo de alienado por ter pouca conexão com o universo virtual. Paciência, nutro mais interesse em poesia, em conversar e compreender o meu tempo através do diálogo.

Enquanto os quatro jovens desabafavam, lembrei de um livro do escritor sul-coreano Byung-Chul Han, chamado, a propósito, A Sociedade do Cansaço. Diz ele: "O alarido da comunicação sufoca o silêncio. A proliferação e massificação das coisas expulsa o vazio. As coisas superpovoam céu e terra. Esse universo-mercadoria já não é mais apropriado para se morar. Ele perdeu toda relação para com o divino, para com o sagrado, com o mistério, com o infinito, com o supremo, com o elevado."

Nossa época é de liberdade, podemos provar todos os frutos. Ou melhor, devemos provar todos os frutos. Mas talvez essa saciedade precoce irá nos expulsar do paraíso.

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