Ciro Fabres: o cão e seu desalento  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião 24/10/2018 | 16h26

Ciro Fabres: o cão e seu desalento 

Este cão talvez tenha imaginado que outro mundo é possível, uma Pasárgada canina

Há um cão com quem tenho encontrado no percurso matinal do passeio habitual com uma das minhas cachorras, que a essa altura já atingiu a meia idade. O tempo passa, o tempo voa, a vida avança. Quase não me chamou atenção nas primeiras vezes o cão, a não ser por sua presença discreta. Mas aquele encontro sistemático, aquela circunstância de disponibilidade de um passeio matinal foi atraindo meu lado observador, meu lado preferido, e fui desvelando aos poucos os detalhes daquele universo canino.

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Trata-se de um cão avançado em anos, quase no limiar da existência. Um dia, foi um cão-criança, com toda energia e vivacidade que os cães-crianças sabem ter. Mas que agora chega ao fim da jornada. Movimenta-se vagarosamente, com cuidado e enorme dificuldade sobre as patas frágeis. Um cão idoso. Aparenta ser um poodle preto, vestígios da raça que se diluem nos sinais evidentes de descuido, perceptíveis nas pelagens desgrenhadas dos poodles. Poderia ser um cachorro de rua, mas não é. Tem um quintal para chamar de seu e perambula lentamente por ele. Mas aparenta sofrer de indiferença. Nunca vi alguém com ele, chamar-lhe pelo nome. Então ela fica lá, sozinho, em completa solidão, o olhar a apagar-se.

Flagro-me a pensar sobre a trajetória havida entre a vivacidade do olhar do cão-criança e o olhar que agora se apaga aos poucos. É um exercício perturbador. Nesses encontros, nossos olhares passaram a se encontrar, era inevitável. Ele me examina, junto com a cachorra que me acompanha, mas não há nenhum sinal de contrariedade. A tolerância é completa. Nada mais transparente e intenso do que o olhar de um cão. Neste caso, tento traduzir, e creio que consigo, é um olhar de desalento submisso. Desalento diante da trajetória, dos desencantos inevitáveis que surgem pelo caminho, inclusive em uma vida animal. Este cão talvez tenha imaginado que outro mundo é possível, uma Pasárgada canina, de onde emanam leite e mel, onde haveria convivência harmoniosa entre os cães, com respeito às diferenças, sem as tradicionais expressões de dentes arreganhados, bem além do pátio que contém sua existência. Mas não teve a chance de conferir, de onde certamente brota a fonte de seu desalento, junto com a sempre terrível indiferença cotidiana. A reflexão, apesar da boa dose de devaneio, não deixa de ser oportuna para uma reta final de campanha.

Ontem de manhã, cruzei por lá, mas não vi o cão. Fiquei preocupado. Quero voltar a encontrá-lo para ver se, naquele olhar, apesar de tudo, ainda habita algum sinal de esperança, de crença na humanidade, canina inclusive. Creio que sim. Desejo que sim.

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