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Opinião 31/10/2018 | 06h20Atualizada em 31/10/2018 | 06h20

Ciro Fabres: filosofia numa hora dessas 

O ambiente que criamos tem sido nossa ruína. Precisamos desmontá-lo, e a saída é uma só

Estamos emergindo de uma eleição onde a agressividade se fez presente desembaraçada, cada vez mais espaçosa. Pensar diferente, ser diferente, escolher diferente é uma ousadia e uma afronta - e cada vez mais isso tem se tornado explícito. A eleição potencializa essa enfermidade social. Essa realidade tornou-se escancarada quando, na reta final da campanha, o candidato que dias depois seria eleito presidente externou seu desejo de enviar oponentes “vermelhos” para a cadeia ou para o exílio.

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O mais preocupante é que estamos emergindo da eleição, mas o ambiente gerador desse convívio inviável com o diferente, que é subjacente à eleição e fonte da agressividade eleitoral, isso persiste e está enraizado no dia a dia. Portanto, se manifesta a qualquer momento, e retornará mais aguçado na próxima eleição, no próximo embate, em qualquer esquina. O que se passa nas redes sociais é só a imagem no espelho. A esse ponto chegamos. A esse nível descemos.

O ambiente que criamos tem sido nossa ruína. Precisamos desmontá-lo, e a saída é uma só, o reaprendizado do respeito ao outro. Respeito integral. Respeito radical, para aproveitar um termo batido em época de eleição. O outro era radical, foi o que muito se disse. Mas o outro, o diferente, tratado com a reverência merecida pelo que é humano, essa é a saída. Mesmo que tenha errado, cometido algum deslize, ninguém está livre. Nesta característica da humanidade, sujeita ao erro, reside o que nos iguala a todos. Ninguém é melhor do que ninguém.

Precisamos construir as saídas com o outro e pelo outro. Ouvindo o outro e respeitando o outro. Reaprender a ouvir o outro, antes de rechaçar automaticamente seu argumento. E responder com a serenidade possível, promover aproximação, e não implodir pontes.

Jean-Paul Sartre, filósofo francês do existencialismo, cunhou sua célebre sentença de que “o inferno são os outros” para traduzir a percepção do outro. Os outros ocupam espaço, tiram nossa autonomia de movimentos, que passa a ser mediada pelo social, mostram nossos defeitos e inseguranças. Mas oferecem a contribuição essencial para nos percebermos como somos, a partir de outros olhares, e complementar nossa visão de realidade. O outro é decisivo.

O escritor Luis Fernando Verissimo costumava empregar em alguns de seus escritos a expressão “poesia numa hora dessas?”. Pois é, “filosofia numa hora dessas”, recém-saídos de uma eleição? É que o momento é didático para identificarmos as possibilidades que nos restam. Tudo passa pelo respeito ao outro, pelo bom convívio com quem é diferente. Com o outro e pelo outro. Só assim para construir outro ambiente, menos agressivo, com mais entendimento possível.

 
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