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Opinião17/10/2018 | 07h37Atualizada em 17/10/2018 | 07h37

Ciro Fabres: conversar, simplesmente

Vamos perdendo o hábito e, também, vamos perdendo a prática

Ainda peguei aquele tempo em que as famílias levavam as cadeiras para a calçada, na frente de casa, ou nos pátios aos finais de tarde, para olhar o movimento e conversar. A boa conversa é mercadoria que escasseia, assim como o tempo para ela, o ambiente para ela. Não é difícil. Mas requer tempo, hábito e desarme de espírito. Com frequência, a conversa precisa ser apressada, sujeita a mal-entendidos de toda ordem. É uma das consequências de nosso estilo, de nossa organização de vida. Hoje, não temos tempo, vamos perdendo o hábito e, também, vamos perdendo a prática, o que é terrível. Tropeçamos nas conversas. Tropeço fatal.

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Essa realidade se transfere, ou se reflete, para a esfera administrativa. Temos um exemplo claro agora no fechamento do Postão. Não houve conversa para definir como se dariam os importantes processos de urgência e emergência para uma cidade de meio milhão de habitantes. Hospitais referência, que certamente absorverão parte da demanda, ficaram sabendo pela imprensa. O diálogo com os servidores é o pior possível. Por ocasião de outro assunto na área da saúde, semana passada, a servidora titular da Coordenadoria Regional de Saúde deu uma declaração reveladora: "Infelizmente, o gestor de Caxias do Sul não senta para discutir." A vida real se reflete na vida administrativa.

Claro que, nas redes sociais, a troca de mensagens se dá entre surdos. Não há entendimento possível. Ali, a situação é multiplicada para pior, mas também é reflexo da vida real. Por isso, medidas singelas que podem facilitar boas conversas devem ser saudadas. O horário de verão, por exemplo. Permite mais tempo de convivência, em especial entre pais e filhos, para o aprendizado e o exercício da boa conversa. Parques na cidade, como o das Araucárias, que breve será entregue à comunidade: que bom. Tempo e espaço para a conversa. Precisa mais, precisa mais praças, mais cuidado com elas. O que é a triste situação da Praça da Bandeira, ali no Centro? Não convida conversar ali.

A política, aliás, essa incompreendida, a boa política, que é a única solução para nossos males, nada mais é do que o lugar da boa conversa para buscar saídas, entre pessoas abertas, civilizadas. A democracia é o exercício da conversa, do argumento. O contrário é o entendimento inviável, a desinteligência, o conflito em evolução, o desrespeito, a lei do mais forte.

Lei do mais forte é o contrário da política. Há quem queira. Muitos de nossos problemas estariam mais perto da solução se dedicássemos tempo para exercitar a conversa e reaprender a conversar e a ouvir.

Retrocedemos, porém, a cada dia.

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