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Opinião 10/10/2018 | 06h17Atualizada em 10/10/2018 | 06h17

Ciro Fabres: a foto que não foi publicada 

No clic do fotógrafo Diogo Sallaberry, uma foto preciosa capaz de traduzir a realidade das eleições

Décadas atrás, havia no Pioneiro, nas páginas da editoria de Esportes, uma seção formidável, de aguçado senso editorial. Chamava-se “a foto que não foi publicada”, você provavelmente já tenha visto algo semelhante em outras publicações. A foto acerca de um evento esportivo vinha acompanhada de um pequeno texto, e mostrava um ângulo inédito, inusitado, um flagrante desapercebido, surpreendente. Foi nos Anos 80, já lá se vão mais de 30 anos, o que significa ter a seção existido bem no meio da trajetória do Pioneiro, que vai fazer 70 anos em novembro agora.

Gosto de discorrer sobre ambientes. Explicam muita coisa. Quase tudo. Ambientes são o contexto. Nada mais revelador para entender realidades do que contextos. Do que ambientes. Tentar entender realidades é tarefa essencial. Assim, identificar ambientes, entender como se formam e os efeitos que induzem e produzem acaba sendo decisivo. Ambiente pode também ser chamado de cultura. Não é a mesma coisa, mas há zonas de superposição na extensão de ambos os conceitos. Uma cultura obtém-se pela perenidade de um ambiente. Um ambiente que se prolonga, de agressividade, ou de aceitação de diferenças, vai gerar uma cultura da agressividade, ou o embrião para uma cultura de paz. Neste momento, há um ambiente claramente em curso entre nós.

Pois bem, o evento recente das eleições, da votação de domingo em um endereço com muitas seções aqui em Caxias do Sul, entregou-nos na redação do Pioneiro, pelo clic do fotógrafo Diogo Sallaberry, uma foto preciosa capaz de traduzir a realidade. No entanto, é uma foto que não pode ser publicada em respeito à legislação que protege crianças e adolescentes. Publicá-la submeteria a criança que aparece identificada na imagem a uma exposição indevida, precaução que se recomenda e que se previne em lei. Então a foto não foi publicada, nem será. Ela mostra uma mulher que foi votar e levava pela mão uma criança, aparentando 7, 8 anos, uniformizada de alto a baixo com roupa militar e uma arma de brinquedo, a réplica de um fuzil, que a criança segurava garbosamente, orgulhosamente. A foto é emblemática, esclarecedora sobre nossos dias. Ela retrata com exatidão esse ambiente em curso entre nós, e o reforça. Assim se gera uma cultura.

Não se cairá aqui na armadilha de formular um juízo sobre esse ambiente, emitir uma opinião. Hoje em dia, é algo proibitivo, explosivo, improdutivo. Apenas fica o registro e se homenageia, a partir de cena tão instigante, a preciosa seção “A foto que não foi publicada”. Uma cena reveladora, que flagra esse nosso ambiente em formação. Longe de mim, no entanto, formular um juízo a respeito. Nenhuma chance. 

Neste momento, não é possível.

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