André Costantin: o pão do diabo  - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião 25/10/2018 | 06h25Atualizada em 25/10/2018 | 06h25

André Costantin: o pão do diabo 

Um humor depressivo escorre por este corpo e bem pode envenenar a massa 

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O chorume nacional está me matando. Passam semanas e não consigo amassar um pão em casa. Estou intoxicado. Não tenho uma vontade, uma força. Um humor depressivo escorre por este corpo e bem pode envenenar a massa.

Um ano atrás passei por uma senhora plantada no sol de uma esquina de Porto Alegre. Ela segurava um cartaz pedindo intervenção militar. Pensei parar o carro, ver se ela estava bem, levar-lhe a mão à testa, ver a febre. Mas o doente começava a ser eu.

Leia mais:
André Costantin: loxosceles inox 
André Costantin: dos muros de vidro  

A farinha e o fermento ali, me espiando pelas frestas do armário... A saudosista da Avenida Goethe era um sinal. Mais havia outros. O populismo delirante da esquerda cedia seus territórios para uma direita encarniçada. Aqui, um prefeito usava a palavra “fé” no seu slogan oficial; em seguida viria outro, usando muito gel e a palavra “verdade”. Maus sinais. Fé e verdade são, no mais das vezes, artifícios de podres poderes.

O cerco aumentava. Meses atrás, uma amiga com as filhas pela mão viu passar uma manifestação em São Pelegrino. Achou até romântico aquele movimento e se agregou à caminhada. Quando o cortejo entrava pela Sinimbu, percebeu que atrás dela um caminhão histérico businava entre faixas do flashback militar. Ela estava na procissão errada. Saiu de fininho. Meses depois as carretas e caminhões-tanques assaltavam o país.

Nação em chamas, o Temer deu o sinal com seu “Ordem e Progresso”, extraído da bandeira nacional, nossa contradição positivista. Até que o Conde Brazuca, antes de entrar no caixão, passará a faixa às portas do palácio do Neymaier(!) para o Capitão falador – muda a patente do terror.

O novo presidente é algo Curupira, pés voltados para trás, repisando os calos dos anos 70. Ele vomita “Deus” no seu slogan. Em resposta, a esquerda anacrônica invoca: o “povo feliz” de volta. Cada vez que o Estado se arvora à salvaguarda das utopias de Deus ou da Felicidade, a liberdade é quem paga o pato do real.

Não, não há como amassar o pão. Eu ando confundindo as ideias. Chamei bolsominions abduzidos do whats de fascistas. Errei! Tento me corrigir. Um historiador do tema, Emilio Gentile, alerta: “usar demais a palavra 'fascismo' não cria reação hostil a ele, mas, ao contrário, o torna fascinante para tantos desgraçados em busca de respostas simples.” Sendo ele da pátria que teve Mussolini, deve saber o que diz.

Não gosto de pão cacetinho. Derramo a farinha na pedra, água; boto a mão na massa. Pobre diabo pretenso anarquista amassando seu pão envenenado, da mão para a boca.

Leia também:
Obras do Postão 24 horas de Caxias do Sul começam nesta semana 

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros