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Opinião04/10/2018 | 07h20Atualizada em 04/10/2018 | 07h20

André Costantin: o comboio da dor 

Não avance os olhos, se queres a quinta-feira de raios fúlgidos invadindo tua alma sedenta

 Desculpa o título da crônica, mas eis o sentimento. Não avance os olhos, se queres a quinta-feira de raios fúlgidos invadindo tua alma sedenta “pela ordem e o progresso do nosso Brasil”, frase lapidar que recém entra no grupo do whatsapp do condomínio.

A expressão “comboio da dor” surge nas primeiras páginas de um livro que o amigo Oliviero, músico e jornalista genovês radicado em São Paulo, busca por intuição entre outros livros sobre a mesa da sala e me entrega na despedida. “Os camponeses pareciam náufragos. Nenhum chorava, mas olhavam com olhares ausentes. Era o comboio da dor”.

Em Um ano no Altiplano, Emilio Lussu, bravo oficial italiano na Primeira Guerra, depois perseguido pelos fascistas, narra um ano – entre 1916 e 1917 – da luta contra o exército austro-húngaro nas montanhas do norte da Itália. A narrativa calca no cotidiano dos soldados, cruzando o destino de homens que, para seus superiores, pareciam descartáveis.

Seria outra densa crônica de guerra na estante, se anos atrás eu não tivesse – por esses itinerários insondáveis da vida – conhecido e sentido o ar do tempo do Altiplano de Asiago, um território formado por sete pequenas cidades assentadas em um platô alpino a mil metros de altitude na região de Vicenza, de onde partiram muitos emigrados para o sul do Brasil no êxodo italiano de fins do século XIX.

Entre paisagens e vilarejos, depoimentos e antigas canções que ouvi e registrei em línguas morrentes, vi também com estes olhos os cemitérios nos bosques, vi muitos lingotes de ferro em lança no meio das plantas dos quintais de velhas casas, heranças funestas das trincheiras campais. De uma colina, a visão de um ossário gigante, monumento com os restos de mais de 50 mil mortos que embeberam em sangue as terras do Altiplano – hoje campos serenos e belos.

O livro de Lussu traz assim o cheiro, a fisionomia, os ares daquela paisagem. Mais do que isso: ilustra traços do espírito deste tempo em que a nação tropical da América flerta com o fascismo de velhos tempos e mundos. Ainda ontem, no trânsito da capital paulista, eu via centenas de bandeiras nacionais colocadas em viadutos, obra e ordem delirante de um prefeito engomado.

Os idiotas e os ingênuos embandeirados surgem por todo lado. As mensagens são as mesmas de nacionalismos que geraram Mussolinis pelo mundo, em tempos cíclicos e diferentes máscaras ideológicas. “Pelo resgate de princípios e valores! Pela proteção da família!” – continua a mensagem do Whats, entre bandeirinhas do Brasil.

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