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Opinião18/10/2018 | 05h57Atualizada em 18/10/2018 | 05h57

André Costantin: loxosceles inox 

Me vejo muitas vezes desconstruindo o sentido imediato das coisas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Chego em casa tarde da noite e a luz branca da cozinha reflete nas cubas de inox da pia de cimento. E pensar que um leve toque do dedo no interruptor faz uma ponte continental entra a megaenergia de uma turbina de Itaipu com as tênues lâmpadas da minha casa no sul do Brasil. No fundo da pia está uma aranha marrom solitária, perdida nas ilusões daquele deserto de inox, impossível de escalar.

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Me vejo muitas vezes desconstruindo o sentido imediato das coisas, entre banalidades cotidianas, como aconteceu agora com o interruptor da cozinha. Tão normal e tão insignificante mecanismo. Mas o que ele seria ao primeiro olhar do imigrante ou do caboclo quando iluminavam a casa com seus candeeiros e velas artesanais? A aranha marrom segue ali, imóvel, à espera do milagre.

Quando criança eu fui um cientista de girinos e aranhas. Sonhava com elas, vivia uma aracnofobia medonha. No laboratório do porão tive até um microscópio caseiro onde observava detalhadamente as patas de uma pequena fiandeira, destas que tecem nos caixilhos imóveis das janelas. Na ponta das patas havia ganchos engenhosos, agulhas para tricotar as teias com maestria. Mas como aqueles ganchos podiam fazê-la escalar os vidros?

Não sei se desconstruir a razão óbvia do interruptor da luz ou dos ganchos das patas de uma aranha resolve as questões da existência humana. O fato é que a aranha marrom continua ali na pia. É uma Loxosceles, elegante nome científico. Um exemplar estranho ao normal. Tem o leque das oito patas desconjuntado, insinuando a arquitetura das armadeiras: patas posteriores curtas e dianteiras potentes, muito compridas.

Certa vez, em um sítio de pau a pique no Vale do Pati, no ventre da Chapada Diamantina, conheci um senhor grisalho de olhos muito claros que vinha conduzindo com dificuldade e mau humor um jovem casal de turistas franceses. Ele me viu tomando o mate e veio puxar assunto. Pouco depois eu descobria que conversava com o homem que tinha emprestado o sobrenome a uma espécie de peixe daquela região: Rhamdiopsis Krugi. Luiz Krug, aquele velho guia da Chapada, tinha sido o primeiro a alertar os pesquisadores que na Caverna do Poço Encantado havia um minúsculo bagre albino a ser pesquisado e protegido da faina ruidosa dos turistas.

Penso abrir a torneira e despejar a aranha da pia, que no fim das contas elas já estão tomando conta da casa. Vou tratar o peixe Beta. Volto e junto ela com cuidado na ponta de um papel, levo até o pátio. Acho que eu posso batizá-la de Loxosceles Inox.

 
 
 

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