Adriana Antunes: ouvir (se), do mal-entendido à harmonia - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião30/10/2018 | 06h00Atualizada em 30/10/2018 | 06h00

Adriana Antunes: ouvir (se), do mal-entendido à harmonia

Se você sabe nadar ou tem alguém que possa te ajudar, as coisas ficam mais fáceis

Dias atrás eu disse em casa que me sentia um plâncton. Nunca fui muito boa em biologia, mas lembro que plâncton é um minúsculo ser que vive nos oceanos. Disse que me sentia um porquê às vezes parece que estamos submersos em água salgada por todos os lados e fluir livremente depende de nossa capacidade de aceitação e compreensão. São as nossas angústias que transbordam, inundando a vida. Muitas vezes nos sentimos pequenos diante de um mar delas. 

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Se você sabe nadar ou tem alguém que possa te ajudar, as coisas ficam mais fáceis, mas se está sozinho, então o mar parece maior e mais revolto. Gosto da imagem do plâncton porque mesmo sendo pequenino e frágil, desce até a profundeza. Depois volta para a superfície. E assim, mergulha e respira, sucessivamente, entrando em contato com seus escuros e buscando a luminosidade. Descer até nossos espaços mais abissais é fundamental. Traz à tona nossas imperfeições, medos, desgostos, memórias, angústias. É preciso saber ouvir(se). Quando nos ouvimos, reconhecemos que somos incompletos, impermanentes. Ouvir(se) é dar-se espaço para o outro perceber-se tão inacabado quanto nós. Ouvir(se) é experimentar(se). É reconhecer que tamanho temos, sem ilusões de sermos melhores ou maiores ou mais merecedores. Apenas somos muitos e muito parecidos, independente em que votamos ou para qual time torcemos. Na hora que nos encontramos sozinhos, seja debaixo do chuveiro ou quando deitamos para dormir, as angústias se parecem.

O mundo é um espaço de provocações. Provoca-nos com suas palavras, atitudes, gestos. Ao fechar os olhos, temos a ideia de que conseguiremos manter distância de tudo aquilo que nos afeta. É uma ilusão. Os ouvidos sempre estarão abertos, pois não há portas que nos separem dos sons externos e internos. Podemos até fazer "ouvidos de mercador", mas não poderemos negar que o som, o canto, o barulho, a lamúria, o murmúrio, o sussurro não nos chegaram. A escuta ordena o mundo, organiza a linguagem. 

É pelo ouvido que o mundo nos penetra. Saber ouvir a si mesmo e ao outro é permitir que o mal-entendido dê espaço à harmonia. Ouvir, com disposição, é permitir que o outro se mostre para além das aparências. Assim, seremos, os dois, convidados a testemunhar nossa capacidade de estarmos presentes no diálogo. Dialogar, por sinal, é também saber ouvir e quando experimentamos coisas diferentes, temos coisas diferentes para dizer.

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