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Opinião 23/10/2018 | 06h15Atualizada em 23/10/2018 | 06h15

Adriana Antunes: a cigarra 

As cigarras cantam para anunciar o verão com suas horas alongadas e o desejo de romper o invólucro da solidão 

O verão está quase aí. Assim que os dias ficarem mais aquecidos, com o sol mais presente, as cigarras entoarão cantos por todos os cantos. Há uma variedade infinita de cigarras, desde as que entoam cantos mais agudos até as mais elaboradas notas. Há as coloridas, as de uma cor somente, as grandes e as minúsculas. Cada qual fundamental para que a sinfonia do verão não desapareça em meio ao medo das ruas vazias e entre o barulho da solda. As cigarras cantam para anunciar o verão com suas horas alongadas e o desejo de romper o invólucro da solidão. É um convite para que saiamos de dentro de nossas casas, coloquemos as cadeiras no jardim e tomemos chimarrão ao ar livre. 

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Mas nem todo mundo gosta do canto da cigarra. Alguns acham que elas não cantam e, sim, gritam e, não é nada bom ouvir gritos quando ao final do dia as máquinas param e já se está cansado de barulho. O silêncio também protege. Silencia-se para não despertar outros ouvidos, talvez acostumados com o ritmo sonoro do tédio de uma nota só.

Quando as cigarras não cantam, as formigas esquecem dos seus direitos de ter tempo para ir ao teatro, ler um bom livro, ver um filme ou simplesmente não fazer nada. O fato é que as cigarras fazem parte do ecossistema e precisam ser respeitadas. É um ser imune as aspirações do lucro e ouvi-la cantar, mesmo que sozinha, é reconhecer uma forma de resistência ao egoísmo. O canto de uma cigarra é o antídoto à barbárie do utilitarismo, afirma o professor de literatura, Nuccio Ordine. As cigarras estão para nos mostrar que consoantes precisam de vogais para emitirem sons. Sua existência chama a atenção para a gratuidade da vida.

Mas as cigarras estão morrendo. Talvez por culpa do aquecimento global ou dos agrotóxicos. Quando uma cigarra morre, morre com ela o direito à crítica, a tolerância, a solidariedade e o direito ao bem comum. As cigarras cantam, na maioria das vezes para promover a aproximação entre os seres, mas ouvi dizer que elas também cantam quando são pegas pelo predador. O canto de uma avisa outra, que avisa outra, que avisa outra e de repente um grito só, imenso e ensurdecedor se faz presente, denunciando o perigo.

 
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