Marcos Kirst: (Sobre)viver na Era da Ira - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/09/2018 | 07h23

Marcos Kirst: (Sobre)viver na Era da Ira

Isso revela o tamanho de nossa insegurança interna, do medo de sermos o que somos

Depois da Era do Gelo, da Era do Fogo, da Era do Bronze, da Era dos Transportes, da Era das Comunicações, chegamos, enfim, à atual Era da Ira. Vivemos tempos turbulentos em que a sociedade optou espontânea e conscientemente pela adoção aberta e ampla dos sentimentos mais vis da psique humana como condutores de seu destino e pautadores de seu cotidiano. Odiar é a regra. Odiar é o mantra. Desconstruir, humilhar, agredir, reduzir, difamar, caluniar, injuriar, xingar, cuspir, esfaquear, estripar, pisar, gritar, ofender, ironizar, esmagar, torcer o pescoço, esculhambar, ferir, são os verbos do momento. Compete-se para ver quem acumula mais pontos na escala da ira.

A fórmula para transitar nessa espinhosa Era da Ira é simples, e está ao alcance (e sendo praticada) de todos, independentemente de idade, gênero, cor, raça, religião, escolaridade, conta bancária. A democracia do ódio está plenamente instalada. Ela se baseia em princípios básicos como a dedicação ao reducionismo tacanho e às generalizações rasas (“todos os que pensam e agem diferente de mim são isso ou são aquilo, e, na maioria das vezes, são tanto isso quanto aquilo e ainda mais aquiloutro”); o exercício diário da capacidade de xingar o próximo como não se deseja que xinguem a nós mesmos; o abandono da empatia pelo culto da “odiopatia”; a convicção de que todos merecem ser odiados, exceto nós mesmos, claro, porque nos imaginamos ungidos pelo cetro da verdade (e cegados pelas trevas do preconceito, da intolerância, do desamor e da barbárie).

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Tudo isso revela apenas o tamanho de nossa insegurança interna, do medo de sermos o que somos, de nossa incapacidade imatura de nos relacionarmos com as diferenças, com o contrário, com o contraditório. Quem pensa e age diferente precisa ser eliminado, execrado, desconstruído. É o comportamento primitivo floreado pela roupagem enganadoramente perfumada da modernidade. O atual dedo nos teclados é a reconfiguração do ancestral punho no tacape. Homens e mulheres de cro-magnon fantasiados de carteira de motorista e diploma universitário, incapazes de camuflar o primitivismo bárbaro que molda e move suas almas bestiais. A barbárie, quando evocada como modelo de sociedade, como via aceitável a ser adotada, conduz a um só desfecho: o fim da civilização. A decadência do escopo social é clara e inexorável, a partir do momento em se opta pelo xingamento ao invés do debate inteligente, civilizado, fraterno, construtivo e transformador. A Era da Ira não veio para ficar. Veio para reduzir a pó qualquer possibilidade de permanência.

 
 
 

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