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Opinião28/09/2018 | 15h16Atualizada em 28/09/2018 | 15h16

Gilmar Marcílio: uma tarde...

Em política, hoje estamos condenados a votar no menos medíocre

 Lá fora, as laranjeiras e as acácias floridas davam indícios de felicidade. Li um pouco de Adélia Prado e fui para a cozinha preparar um bolo de nozes. Então chegaram nossos diletos amigos, Tiago e Jerusa. Toda vez que os recebemos em nossa casa é como se ela ficasse impregnada com a sensibilidade e inteligência de suas conversas tranquilas, repletas de referências filosóficas e existenciais. Um abraço bom e, depois de meia dúzia de frases ligeiras, começamos a falar sobre a atual situação política do Brasil. Com eles é possível fazer isso. Eu sabia que em momento algum haveria confronto, polarizações, defesa de um lado ou de outro. Diretores da Escola Nova Acrópole, passeiam naturalmente por diversas culturas, e logo foram nos mostrando as imperfeições desse sistema chamado democracia. Em seu extremo, o ideal, seríamos governados por um grupo de sábios, impregnados de ensinamentos adquiridos pela vivência e pela leitura dos textos antigos, esses que nos revelam em nossa grandeza e iniquidade. Sim, somos um pêndulo que oscila entre a ganância, o desejo de poder e a generosidade que nos leva a ver o outro e suas necessidades na hora de tomar alguma decisão. Em silêncio agradecido, ficamos ouvindo por longo tempo como agiam os grandes líderes do Egito, da Grécia, de Roma. Povos que, após milênios, ainda são reverenciados quando o assunto é a arte de governar.

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O crepúsculo foi vestindo plantas e seres e mal nos demos conta de que há horas estávamos tentando entender porque chegamos à situação tão lamentável. Sobrou pouco respeito e quase nada de admiração. Na fala do senso comum, repete-se a mais terrível das frases: anularei meu voto, não vejo virtude ou capacidade em nenhum dos candidatos. Apenas os insanos sonham com a volta da ditadura. E, tristemente, há os que persistem em ignorar os fatos mais evidentes que denunciam a corrupção dos líderes deste ou daquele partido. São movidos pela patologia das paixões, engavetando a racionalidade e o senso crítico. Lembrei ao Tiago que, apesar desse desalento que vemos no rosto e na fala de tantas pessoas, ainda precisamos comemorar o fato de sermos livres e podermos escolher longe da chibata ou do medo de perdermos a vida. Sim, disse ele, mas não esqueça que o tema da liberdade é recorrente entre os escravos, não entre aqueles que podem pensar por si mesmos. O mal maior, ponderei, é que hoje estamos condenados a optar pelo menos medíocre.

E seguimos esse diálogo que em nenhum momento resvalou para as posições extremas, como tanto se vê hoje em dia. Observamos, ponderamos, lembrando sempre das palavras dos grandes mestres que são os luminares da vida: Platão, Sócrates, os estoicos, Sêneca. Resistindo à despedida, buscamos consolo na própria História: depois da decadência, devemos esperar por um novo apogeu. As cirandas de horrores costumam ser sucedidas pelo esplendor das luzes. Que assim seja.

 
 
 

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