Gilmar Marcílio: cachorra Lili  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião 21/09/2018 | 15h52Atualizada em 21/09/2018 | 15h52

Gilmar Marcílio: cachorra Lili 

¿Quem é amado pelos cães tem a alma habitada pela doçura de seus olhos.¿

Durante duas semanas procuramos incansavelmente pela nossa amada cachorrinha Lili. Chovia quase todos os dias. Fazia muito frio. Eu e minha irmã vasculhamos todas as áreas possíveis. Nenhum recanto deixou de ser devassado. Momentos de grande tristeza e pequenas esperanças que acabavam se desvanecendo. Nosso sono se tornou escasso, com recorrentes pesadelos. Ao acordar, lembrando o que havia acontecido, uma cortina de tristeza revestia tudo. Os amigos buscavam nos consolar, criando uma rede de afeto. Sentia imensa gratidão por cada gesto, cada palavra. O tempo ia passando e a possibilidade de encontrá-la diminuía. Quedava-me prostrado, com pouca força ou vontade para fazer o que fosse.

Quem é amado pelos cães tem a alma habitada pela doçura de seus olhos. Sabe que a possibilidade de perdê-los é uma dor que a linguagem não alcança. É como se um familiar muito querido estivesse em perigo. Não há exagero nesta frase e só a entenderá plenamente quem lhes dedica esse amor incondicional que deles aprendemos. A todo instante lembrávamos da Lili por ser extremamente frágil, precisando de medicação diária. Há pouco mais de dois anos, numa de minhas caminhadas, vi-a andando a esmo, perdida. Ao lhe fazer um carinho, subitamente pulou no meu colo e lambeu o meu rosto. Não hesitei um instante em levá-la para casa, aconchegada em meus braços. Desde então ficamos muito próximos. Ela é a personificação da doçura. Raramente late, quer apenas ficar perto das pessoas, protegida. Demoramos alguns meses para descobrir que sofria de epilepsia. Hoje leva uma vida praticamente normal. Só o seu senso de direção é precário. Se algo a assusta – trovões, fogos de artifício – costuma sair pelas ruas desorientada, não conseguindo mais encontrar o caminho de volta.

Uma correntinha no pescoço com seu nome e meu telefone já a salvou anteriormente. Desta vez, por ter se rompido alguns dias antes, estava sem a identificação. Mas eis que, numa manhã de intensa neblina, um vizinho que mora em Nossa Senhora da Roca, nos avisa que um cãozinho com as características que lhes foram descritas se encontrava num antigo galpão de sua propriedade. Desde a fuga ela deve ter permanecido lá, saindo apenas à noite para se alimentar com algum resto de comida deixado pelos outros cães. Com o coração pulsante e uma felicidade que só não era maior pelo medo de não ser ela, nos dirigimos ao local. Quando a vimos foi como se a vida ganhasse novamente sentido, tal a tristeza que nos habitou neste período de orfandade. Timidamente se abrigou em nossos braços e ficou gemendo baixinho. Percebi que ela tremia, não sei se de alegria ou de medo. Agora, voltou a ser o centro do bem-querer, partilhado com a Mila, o Guri e o Fred, nossos outros amores caninos.

Encontrar a Lili foi como ser abraçado pela primavera.

 
 
 

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