Gilmar Marcílio: a cada quinze minutos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião14/09/2018 | 09h40Atualizada em 14/09/2018 | 09h40

Gilmar Marcílio: a cada quinze minutos

Deixemo-nos carregar pelo fluxo dos acontecimentos, sem a eles nos opor

Em Plum Village, no interior da França, existe uma comunidade budista criada pelo mestre tibetano Thich Nhat Hanh. Expulso de sua terra por divergências ideológicas nos anos sessenta, desde então exorta a todos sobre a necessidade de nos tornarmos plenamente conscientes da realidade que nos cerca. Nossa mente devaneia sem parar e o tempo no qual ela menos permanece é no aqui e agora. Passado mais de meio século ainda é possível, aos que têm tal graça, fazer longas e silenciosas caminhadas ao seu lado pelos bosques dessa bela propriedade. Não há uma doutrina específica a ser seguida, mas tão somente o convite para se inserir nesta revolucionária proposta de vida. Que, a um primeiro olhar, parece simples e fácil. Tente. É provável que você desista na primeira hora. O turbilhão de pensamentos que nos assalta constantemente não permite conhecer o aquietamento, a paz. A satisfação de um desejo gera saciedade provisória; logo virão outros, num redemoinho sem fim.

O que esse iluminado propõe é deixar-se carregar pelo fluxo dos acontecimentos, sem a eles se opor. Passam ao largo das discussões que possam gerar conflitos verbais. Excluem qualquer polêmica, pois conviver alimentando controvérsias é a maneira menos inteligente de agir. Ao ver as imagens de grupos de homens e mulheres transbordando serenidade, não resta dúvida de que esse é um dos melhores roteiros para alcançar a felicidade. Pequenos rituais sinalizam a importância da oração, da prece, que nada mais é do que uma forma de gratidão. E é isso que transparece em seus largos sorrisos. Não há um discurso de convencimento ou críticas pelo modo entorpecido a que grande parte do mundo escolheu aderir. É provável que pouco se interessem pelo que esteja acontecendo no cenário político e econômico. Eles precisam do mínimo para a sua subsistência. Móveis e eletrodomésticos são trocados raramente. Como também é pouco usual ver alguém acessando um celular. Alienados? Pelo contrário, estão em conexão profunda com o que define a nossa verdadeira humanidade.

Ignoram o medo de perder suas posses, por isso são livres. Sabem que o mais precioso não pode ser comercializado. Para lembrar disso, a cada quinze minutos os sinos do vilarejo tocam. E todos interrompem as tarefas a que estão se dedicando naquele instante: cozinhando, arando a terra, tocando violino, lavando a louça. É um chamamento para que se reconectem novamente. Para que recordem do milagre que é estar vivo. E que passado e futuro são as duas grandes ilusões que nos roubam a percepção do real. Esse exercício se renova todos os dias, do amanhecer ao cair da noite. Transformam esta parte do planeta que os acolhe num grande altar. E reverenciam a natureza e os seus irmãos de jornada espriritual.

Não ser contra nem a favor. Apenas seguir o fluxo das coisas. É a esta eternidade que deveríamos aspirar.

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