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Opinião06/09/2018 | 14h58Atualizada em 06/09/2018 | 14h58

André Costantin: xadrez azul

Eu fui um combatente ingênuo dos primeiros tempos das lutas oitentistas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Isso talvez não seja uma crônica. É a minibiografia das minhas ingenuidades. Procuro na bagunça aquela camisa xadrez em tons vivos de azul que poderão vestir-me alguma cor no quinto dia de chuva. Vejo que tenho muitas camisas pretas no armário. Uma distorção no país tropical.

Estamos a poucos passos do abismo, democraticamente. Os trópicos são tristes. No trânsito e na chuva o adesivo de um carro traz o candidato da nação, fardado, com um trocadilho idiota dizendo que é bom já ir se acostumando com a sua triste figura.

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Há fogo e muita fuligem no ar. Múmias do Atacama, sarcófagos do Egito, o crânio da mulher ancestral nos mandam seus sinais, desde velha e linda capital do Império em chamas. Particular e ingenuamente considero-me um libertário. Jamais vou me acostumar à canga do fascismo.

Mas assim caminhamos de mãos dadas, resignados, arrastando nossos fardos patrióticos. Estas camisas de luto no roupeiro; logo será 7 de setembro. Nos últimos anos entrei em uma fase irracional da cor amarela e de camisas de verão com panos de motivos florais e grafismos salientes. Fui me enganando sobre mim. Para ser sincero, não sei se prefiro o preto ou as estampas tropicais.

Ontem dei de procurar no arquivo de aço em casa um documento que guardo desde o ano de... 2001. Para ser exato, 13 de setembro de 2001. É um ingênuo requerimento de desfiliação partidária. Então eu deixava de ser jovem idealista e já farejava o ranço da carne podre que exala da mera perspectiva e aproximação do poder. Fui um combatente ingênuo dos primeiros tempos das lutas oitentistas por mudanças (do que mesmo?).

Eis que a gloriosa esquerda não me decepcionou. Amigos da minha geração chegaram lá, mamaram e de fato engordaram em cargos, instituições, fantasias à esquerda e à direita e ao centro. Eu segui por fora queimando na luta e labuta do real, ingênua independência e morte, para agora ver isso: os caminhos aplainados para o autoritarismo. Por isso não me aponte o dedo, Senhor, acaso eu queira caminhar sobre o muro vendo o circo e o museu pegarem fogo. Sou calejado, fui e voltei, tornei-me eu mesmo um muro.

Hoje a chuva se foi. Fico ruminando na cama pensamentos desta grande depressão social que se abateu sobre nós, feito a cerração em Nova Milano. Tais sentimentos, antes do mate, estão me fazendo muito mal. Entra uma mensagem no whatsapp do amigo que mora solitário nos rochedos do Matadeiro, no sul da Ilha de Santa Catarina. O Atlântico está ali, belíssimo nascer do sol. Visto a camisa xadrez

 
 
 

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