André Costantin: Museu do Vinho - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião13/09/2018 | 07h48

André Costantin: Museu do Vinho

Pouco sabemos da história e da cultura do vinho no Brasil

Pioneiro

A cultura do vinho escorre pelo meio-fio das calçadas e ruas, como quando o precioso líquido jorrou da cidade alta até o centro de Bento Gonçalves, no sinistro que atingiu as pipas de madeira da grande vinícola. Então o humor tinto de Dionísio teria formado pequenos córregos nos baixios da cidade, anunciando o incêndio da antiga Cooperativa Aurora. Isso seria memória, outra história do vinho no Brasil — entre o real e o imaginário?

Pouco sabemos da história e da cultura do vinho no Brasil. Muito está se derramando no esquecimento. Ainda enxugamos as lágrimas (de ingênuos crocodilos) sobre as cinzas do Museu Nacional, mas deixamos aqui se perderem os acervos reais e simbólicos de um traço fundador da nossa cultura, uma nossa cor particular no caleidoscópio etnográfico brasileiro.

Como explicar o fato de não termos ainda o projeto de um museu vivo e moderno, um centro de interpretação contemporâneo, institucional, ousado, imagético e sensorial, da cultura do vinho no Brasil? Será preciso mais um parque temático em Gramado para usar e abusar desta obviedade, em tons meramente turísticos?

Em nosso pequeno etnocentrismo regional, somos induzidos a pensar que tudo aqui se deu na história da uva e do vinho, no âmbito da imigração italiana para o sul do Brasil. Mas há todo um Portugal e seu império tropical do Novo Mundo, há as Missões Jesuíticas, há muitos territórios vinícolas antigos e novos, movimentos migratórios e camadas históricas ligadas ao vinho no Brasil, processos sobre os quais pouco pesquisamos.

O museu do vinho deveria não apenas cavocar e guardar os séculos desta história, mas garimpar as sabedorias e ditos populares associados ao vinho, os usos e costumes, desde os processos precursores, simples, rústicos e artesanais, aos mais tecnológicos; o museu do vinho seria um espaço de interpretação, significação e reinvenção de elementos das nossas vidas ligados de alguma forma à cultura da uva e do vinho: a paisagem, a arquitetura, o imaginário, a tradição alimentar, o domínio da madeira e do ferro, o dinheiro também, a literatura, as tradições orais e o cancioneiro, a educação do gosto, a linguagem, os traços de mentalidade.

Observatório da identidade, um museu da cultura do vinho no Brasil poderia nos salvar da nossa desmemória e superficialidade, que nos torna tomadores de vinho para fora, consumidores de rótulos e padrões externos, quando o vinho se toma para dentro, o mais de dentro de nós. Vinho é sentimento, um modo de estar no mundo.

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