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Opinião27/09/2018 | 09h52Atualizada em 27/09/2018 | 09h52

André Costantin: BR

Lembro de um tio que tinha um Maverick laranja de quatro portas

Pioneiro

Dirijo horas e horas na BR 101. As meninas dormem no banco de trás. Entre memórias e as faixas da pista, faço a escuta desatenta dos meus passos, grandes lances, fracassos, saudades do que foi e do que poderia ter sido.

Lembro de um tio que tinha um Maverick laranja de quatro portas. Ele tinha nome de pedra preciosa, daquelas que se diziam eixos de cobiçados relógios de pulso. Ele se chamava tio Rubi e usava um relógio de 10 ou talvez 15 rubis, antes de aqui chegarem os relógios digitais.

Camponês de origem, depois próspero serralheiro em Porto Alegre, o fato é que o tio Rubi tinha um Maverick laranja e de vez em quando se viajava naquele carro. Ele costumava comprar vinho em Farroupiha. Enchia o porta-malas com os garrafões de vinho branco e deslizava RS 122 abaixo. Silenciosos sempre, ele, o Maverick e a carga de bom Moscato.

Na freeway, de vez em quando, se podia ver outros Mavericks, Opalas e Caravans, dojões V8 com espelhos alargados rebocando traileres laranjas rumo às praias. No meu estreito imaginário de criança suburbana do interior, aquilo era o sonho americano. Eu imaginava pilotar aqueles carros; pensava que o meu país era jovem como eu, onde caberiam aqueles sonhos. Eu devia ter uns dez anos.

Entro no posto de gasolina e procuro a bomba do diesel, entre as armadilhas das fossas de troca de óleo caminhões. Carente de conversa, o frentista puxa um assunto banal e – de repente – arriscado (ele tem o rosto surrado do tempo): “a eleição é já na semana que vem...” Respondo com um frouxo “pois é, não estou muito ligado”. Então ele desfila a sua desilusão brasileira, diz que pensa abrir mão de tudo, se anular, entrar no contingente de milhões de nulidades e marionetes que nos tornamos neste grande teatro nacional. Aí pergunta de quem eu vou nesta eleição, talvez procurando uma luz, um eco. Respondo que vou a pé sem direção. Fecha a conta. Arde o coração.

De volta à BR avisto um trecheiro viajando lentamente a vida no acostamento. Vistos de longe, somos tão diferentes na escala social: tenho um endereço, um porto de chegada, carrego documentos, talvez um certo número de pessoas compareça ao meu enterro e alguns comentem que eu fui um sujeito assim assado.

Não há mais Mavericks na autoestrada. Passo pelo andarilho e vejo que somos muito iguais. Praticamente só esta caixa tecnológica de aço e rodas que eu conduzo a 110 km/h nos distingue nesta BR de ilusões perdidas. Caramba: passaram-se mais de 40 anos desde aqueles sonhos da freeway.

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