Turismo: que tal conhecer Cambará do Sul a cavalo? - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Serra03/08/2018 | 16h11Atualizada em 03/08/2018 | 16h11

Turismo: que tal conhecer Cambará do Sul a cavalo?

 Cavalgada desvela as belas paisagens de fazendas, coxilhas e florestas cinematográficas em uma experiência de reflexão e liberdade  

Turismo: que tal conhecer Cambará do Sul a cavalo? Tadeu Vilani/Agencia RBS
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Boas viagens, assim como as grandes navegações, prometem transformar o aventureiro. Mas nem sempre é preciso cruzar um oceano. Em Cambará do Sul, uma paisagem de cânions, cachoeiras, coxilhas, araucárias e Mata Atlântica é um convite a entrar em contato com a natureza e, com isso, retomar o equilíbrio da mente.

A cidade turística, com menos de 7 mil habitantes, dá muitas opções para turistas desbravarem os cenários cinematográficos. Uma delas é em cima de um cavalo, experiência vivida pelo repórter Marcel Hartmann.

Vem junto conosco nesta experiência?

"A Serra Gaúcha tem caminhos que só a cavalo se conhece", dizia uma placa pendurada na parede de um galpão da fazenda Recanto dos Amigos, a 3,5 quilômetros do centro do Cambará do Sul, uma das propriedades que oferecem cavalgadas aos turistas. A mística em torno do tropeiro é muito forte na região, que era ponto de passagem por viajantes que cruzavam os três Estados do Sul no lombo de cavalos para trocar charque por alimentos e tecidos. Cambará era uma das paradas.

O repórter fotográfico Tadeu Vilani, o motorista Vanilson Duarte, o guia de turismo Gerson Patricio e eu fomos recepcionados pelo criador de cavalos Edson Tomazili da Luz, 48 anos, um ex-bancário muito simpático que se cansou da vida na cidade grande e, há 19 anos, trabalha com passeios turísticos. A fazenda que ele toca, há 60 anos na família, também é hospedaria e tem uma área de plantação de pinus, vendidos comercialmente.

Optamos por realizar o passeio de sete quilômetros e uma hora e meia de duração (R$ 70 por pessoa) por trilhas abertas nos campos de altitude _ cruzando coxilhas altíssimas _, em uma mata fechada, e finalizando com a vista do horizonte em cima de um morro. Há, ainda, outras duas escolhas: a trilha até o Lajeado das Margaridas, de 15 quilômetros e cerca de três horas (R$ 150), ou a trilha noturna feita unicamente sob a luz da lua cheia (R$ 80).

Edson nos apresentou aos cavalos que se tornariam nossos amigos e os preparou em nossa frente. Como camadas de roupa para o inverno, vestiu-os com baixeiro (espuma para proteger o cavalo), a cela, o pelego (para não esfolarmos as nádegas), a sobrechincha (cinta para segurar o pelego), o cabresto (a corda para pegar o cavalo) e o freio (a corda para dar os comandos).

— É tranquilo andar mesmo para quem nunca andou. Puxa o freio para a esquerda, e o cavalo vai para a esquerda. Puxa para a direita, e ele vai para a direita. Puxa para trás, e ele para. Bate com os pés na barriga dele, e ele anda para frente — sintetizou.

Subi no lombo da égua Tostada sem pagar o mico de cair. É verdade que eu nunca havia subido no lombo de um cavalo, portanto descrevo a quem também não: a sensação é de liberdade ao cavalgar para cima e para baixo em meio a morros de vegetação baixa.

Luz cinematográfica 

 CAMABARÁDOSUL - RS-BR 17.07.2018Cavalgada na Fazenda Recanto dos Amigos, no interior de cambará do Sul.FOTÓGRAFO: TADEU VILANI AGÊNCIARBS
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Após encher os olhos de horizontes de morros, entramos em uma mata nebular fechada tomada de arbustos, araucárias e lama. Se antes o espaço era aberto, e a vista alcançava dezenas de quilômetros adiante, agora era obliterada por troncos e galhos que, vez ou outra, roçavam em nossa cabeça. O barulho de um curso d'água poucos metros à direita reconfortava, uma bela trilha sonora.

Saímos em uma clareira e, poucos metros à frente, entramos em uma floresta gigantesca de pinus, árvore importada do Canadá para a venda comercial. Se antes a trilha era úmida, agora era o contrário: a floresta era seca, com gravetos espalhados ao chão _ o pinus, vale lembrar, suga bastante água do solo. A luz estava quase cinematográfica. No embalo da novidade, pedi para Tostada galopar.

A experiência de andar muito rápido a cavalo, com o vento despenteando os cabelos, é de um desprendimento muito grande, como se eu tivesse deixado toda e qualquer roupa para trás e nada me importasse. Ao sentir a respiração ofegante de Tostada e imaginar como viviam as pessoas na época de O Tempo e o Vento, romance de Erico Verissimo, ocorreu-me que, no presente, sempre carregamos o peso das ações do passado. Portanto, mesmo que eu more em um apartamento em Porto Alegre, só estava naquela viagem porque, há muitos anos, tropeiros tomaram decisões prosaicas de parar por Cambará e, com isso, ajudaram a construir a história da cidade. Passado e presente se entrecruzam.

360º de florestas e coxilhas

A floresta de pinus ficou para trás: cruzamos uma porteira de madeira, atravessamos uma estradinha de terra e entramos em um terreno de coxilhas altas e íngremes. O objetivo agora era subir o morro alto e avistar o horizonte, em um entardecer de cores lilás. Diante de nossos olhos, desvelou-se uma paisagem em 360º de florestas, coxilhas e cânions até onde a vista alcançava. A altura era tanta que chegou a dar vertigem. O vento forte fez Tostada virar-se, em busca de proteção. O frio me traz de volta à realidade.

— Gostaram do meu escritório, senhores? Se quiserem, posso desligar o ar-condicionado — brincou Edson.

É difícil enquadrar em palavras as experiências que mexem com sentimentos, mas, com a distância de escrever o relato após alguns dias, tendo como base anotações do dia, resumo assim o que se passou dentro de mim: todas as vivências que tive na vida e que têm o grande peso de constituir minha identidade não importam nada diante da imensidão da natureza, que me redimensiona como um ser muito pequeno e vulnerável.

Voltamos à fazenda com a noite já caindo sob nossos ombros. Enquanto provávamos cachaças artesanais na fazenda de Edson, trocando impressões sobre o passeio, tive certeza da ideia que me veio dias antes, no Circuito das Águas: a paisagem de Cambará ficaria para sempre dentro de mim, remodelando meu mapa interno.

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